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Huun Huur tu

O Canto Gutural dos Tuvans

O concerto do Huun Huur Tu começa com os sons suaves de cordas, imitando a cadência de cavalos a galope. Os mesmos sons são graciosamente decorados por outros sons que se assemelham a grãos de arroz caindo em um frasco de vidro. Neste momento, a mente se enche de memórias de um som melódico a tranquilo de um riachinho se aproximando o momento de se tornar um rio. Depois de uma breve pausa, ganhamos uma surpresa: cada um dos artistas começa a cantar um tom individual e prolongado. Cada uma de suas vozes podem ser ouvidas como uma camada. E, embora cada uma dessas camadas é única, elas interagem com um as outras. Da para imaginar uma conversa entre notas musicais

Se eu pudesse descrever estes sons como imagens e movimento, eles seriam como folhas de outono que caem ao vento como se dançassem. Se eu pudesse comparar a música Tuvan com a música clássica, eu a compararia a um quarteto de cordas tocando Canone Pachebel em D, onde os instrumentos parecem interagir numa conversa animada. Esta é a mesma interpretação que os Tuvans fazem ao ouvir o som do vento viajando entre as montanhas em que vivem. É como se os elementos estivessem conversando entre si. As vozes dos cantores são grossas e vêm direto de suas gargantas, numa dureza semelhante ao próprio ambiente natural.

O canto gutural dos Tuvans produz um contraste curioso. É algo que se assemelha a uma oração ou mantra OM emitido por um Yogi. Mas em vez de desaparecer vagarosamente enquanto esvazia o ar de seus pulmões, pára de repente e começa novamente com a próxima respiração. Enquanto a aspereza me faz lembrar de sons dos Didgeridoos dos Aborígenes Australianos, a nova cadência se assemelha a canções de índios americanos.

Este é o momento em que o tema da Musica Tuvan se torna claro. Nomadismo é um aspecto que Tuvans têm em comum em suas vidas com os índios americanos e os aborígenes australianos. Eles são móveis como o vento. O mesmo vento que é feito de ar, o mesmo ar, cuja pequenas moléculas se movem, colidem entre si, vibram e batem nos nossos tímpanos nos permitindo ouvir música. Música, tendo ar como seu principal componente, não existiria sem o movimento. É o movimento que traz vida a música: o movimento de músicos que viajam, que compartilham seus sons onde quer que vão e assimilam outros sons onde quer que parem.

Sobre os Tuvans

Graças ao trabalho do etnomusicólogo Theodore Levin na década de 1980, o mundo veio a conhecer a tradição de canto gutural dos Tuvans. Tuva é uma área localizada na Federação Russa, ao noroeste da Mongólia. Tuvans são pastores nômades que vivem em tendas e utilizam cavalos para se deslocar na regiões frias e rochosas das montanhas. Os mitos sobre as origens do canto gutural Tuvan estão intimamente ligados ao ambiente em que vivem. Acredita-se que há vários séculos, um indivíduo desconhecido, tentou imitar a ressonância do som do vento em um lago. Esta experiência se transformou em uma tradição que evoluiu ao longo do tempo, para incluir sons de pássaros e do vento passando por montanhas.

Em seu livro “Where Rivers and Mountains Sing: Sound, Music, and Nomadism in Tuva and Beyond”, escrito em 2006, Theodore Levin descreve suas experiências com música Tuvan. Ele inclui detalhes sobre como a música Tuvan reproduz os sons, as ações dos animais e do ambiente em que eles vivem.

Hélices de Sol

O grupo música Tuvan Huun Huur Tu foi formado em 1992. Huun Huur Tu se traduz como raios de sol ou hélices do sol. Seu primeiro álbum “Horses In My Herd” foi lançado em 1993.