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Feliz Aniversário

Oba ! Conseguimos! Berimbaudrum completa 1 ano de idade ! Esta é uma data que merece comemoração, especialmente quando pensamos que apenas 5% dos blogs sobrevivem depois de 3 meses , enquanto o resto é abandonado e esquecido por seus escritores. Muitas vezes eu me refiro ao Berimbaudrum como uma Revista Online sobre World Music. Acho que soa melhor. Tecnicamente, é um blog, talvez um blog glorificado , mas ainda assim um blog. No entanto, uma das conquistas dos últimos 12 meses foi ganhar credibilidade com o público , os músicos e promotores culturais, que não parecem dar a mínima se eu digo “blog ” ou ” revista online” .

É reconfortante ver que pelo menos 70% de vocês continua voltando todo mês, com muitos deixando uma marca através de compartilhamento , comentários e o clique no “curtir”. Em termos de números, este total é modesto na escala inflacionada da websfera , mas são números que representam pessoas reais com uma paixão em comum pela música. Isto traz à mente outra recompensa muito importante: como resultado do processo de desenvolver Berimbaudrum , no ano passado , eu conheci seres humanos dos mais agradáveis, sensíveis, talentosos e humildes. Todos estes seres continuam a me me inspirar com sua coragem, força interior , garra e senso de aventura – qualidades que são muito importantes em uma profissão tão essencial para nosso bem-estar e identidade cultural , mas que nem sempre recebe o merecido valor.

Minha primeira proposta era inverter o jogo e falar sobre World Music através de uma perspectiva diferente daqueles que criaram o rótulo ” World Music “. O que eu contei a todos , e para eu mesma , foi que eu queria promover a cultura Brasileira para além dos estereótipos , mostrando que a música de qualquer lugar se conecta com a música de qualquer outro lugar. Mas o que eu não contei a ninguém , nem mesmo para eu mesma, foi que este  trabalho é o resultado de uma reflexão em torno da tentativa de compreender e aceitar uma fusão cheia de conflitos dentro de minha própria identidade cultural: a de uma cidadã Brasileira morando na Grã-Bretanha , que cresceu ouvindo música britânica em excesso , com a de uma cidadã Britânica nascida no Brasil, aprendendo a apreciar ritmos que haviam sido mal expostos na mídia do próprio país de nascimento , enquanto crescia . Deixei baixar a Carmen Miranda e fiz a festa !

O momento para uma viagem tão introspectiva não poderia ter sido melhor. Música é hoje um dos principais motores da economia digital. Assim como novos estilos musicais do século 20 passaram a dominar o mundo através de tecnologias de comunicação de massa, a web está permitindo uma musical evolução ainda mais rápida com o surgimento de estilos como o Mango Beat. Tambem está permitindo o renascimento de expressões culturais que já se encontravam esquecidas , como o Cordel , um estilo de discurso ritmado que atingiu o seu apogeu durante as décadas de 20 e 30 , no Nordeste do Brasil. O Cordel em si, muitas semelhanças com o Original Rap do Bronx de 1970 em Nova York .

Mídias Sociais tornaram mais fácil entrar em contato diretamente com músicos durante a busca por material para escrever. Isto é algo que, no século anterior, seria mais como a Dorothy tentando conseguir uma audiência com o Wizzard of Oz . Generosamente eles me permitiram pegar carona no Trem Base de fãs, no qual viajei por muitos quilômetros na companhia de um grupo ativo , independente e sofisticado de amantes da música.

Durante esta viagem , eu fiquei deslumbrada com o trabalho pioneiro de Babilak Bah, sua orquestra de enxadas e sua iniciativa de ligar a música com a saúde mental, um trabalho que o levou ao lançamento do Trem Tan Tan, uma banda animada consistindo de ex-pacientes de instituições de saúde mental. Makely Ka , outro músico Brasileiro , me surpreendeu com seu projeto de viajar de bicicleta através do Cerrado e Sertão, enquanto pesquisava e gravava estilos musicais tradicionais. Equipado com um laptop , cuja eletricidade era suprida por horas no pedalo, Makely manteve seus fãs diariamente atualizados com imagens fascinantes da paisagem rural e relatos escritos sobre sua experiência . Titane, Paulinho Pedra Azul e Tizumba me deram a mesma alegria de escrever sobre o trabalho que fazem. Descobri também bandas completamente fora dos moldes , tais Graveola e Banda Previsão do Tempo, uma promessa de um tipo de revolução musical que lembra e vai alem da Tropicália . Na Isle of Wight, uma pequena ilha no sul da Inglaterra, fiquei encantada com a música de Ben Stubbs ,Yours&Mine , David Hughes e a magia do digerido de Joe Caudwell, sobre o qual irei escrever em breve.

Nesta experiência em que aprendi bastante, eu pude constatar o  renascimento musical vindo da África, representado por bandas como Mokoomba. Para completar, e sem vergonha de dizer, fiquei totalmente stars-strucked ao dar de cara com legendas como Milton Nascimento e Courtney Pine, artistas geniais que se tornam verdadeiros shamãs ao subir no palco. O primeiro ano de Berimbaudrum tendo sido, definitivamente uma viagem longa e gratificante que eu não sei quando ou se chegara ao fim. Às vezes, tem sido difícil descrever toda a experiência sem me recorrer a um carnaval de superlativos. O itinerário para os próximos 12 meses já está se definindo com artigos sobre uma série de músicos inovadores.

Eu vou terminar esta reflexão e retrospectiva sobre o  primeiro aniversário de Berimbaudrum , prestando homenagem a Afunakwa , uma mulher da Ilha de Salomão . Em 1969, ela foi surpreendida por um etnomusicologo cantando para uma crianca dormir. O etnomusicologo a gravou e em 1973, sua cantiga chamada Rorogwella,  foi publicada pela UNESCO. Décadas mais tarde, Rorogwella foi disapropriada e comercializada. A tribo de Afunakwa nunca recebeu recompensa pelo sucesso comercial da cantiga . Afunakwa talvez tenha morrido sem nunca saber que sua voz calma e suave continuaria e encantar pessoas de varias partes do mundo. Cantigas de ninar são para a maioria de nós , a primeira e mais significativa experiência com a música. E tais cantigas existem em todas as culturas …

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Marku Ribas

Marku Ribas: Uma Saudade

Marku Ribas foi um artista cujo trabalho mereceu muito mais atenção do que recebeu. Ao longo de sua carreira, ele deu ao seu público uma criatividade com alegria e sem medo de correr riscos. O multi-talentoso e espírito-livre Ribas, foi o artista que oficializou a “polirritmia”, uma técnica de produzir sons com o próprio corpo. Suas performances eram hipnotizadoras e demonstravam um músico bem à frente de seu próprio tempo. Foi com tristeza que soubemos de sua morte, no dia 6 de abril, aos 65 anos de idade em decorrência do câncer.

Até mesmo em morte, Ribas demonstrou mais uma vez seu lado alternativo. Durante 2 dias, Twitter e Facebook foram inundados com mensagens de pêsames e despedidas de seus amigos e de quem teve o privilégio de ter trabalhado com ele. Entre eles, o múmusico Ed Motta, que escreveu ” Marku tinha um talento exuberante demais para os parâmetros da período em que surgiu. E ter talento demais sempre foi desagradável/desconfortável para toda corja que compõe o tal meio musical, seja num editorial de revista ou mesmo na cabeça mercantilista, cara de pau dos próprios ditos “artistas” que foram ensinados como gado obediente que a grande virtude é a merda do disco de ouro na parede. O disco de ouro obviamente é uma metáfora, já que o mercado não existe como era…”  Outro músico que prestou uma homenagem a Marku Ribas, foi Pablo Castro, que ainda escreveu sobre ele no presente: “Marku Ribas é um dos mais exuberantes músicos brasileiros do século XX, dono de uma voz que raiava as vibrações da natureza, de presença vigorosa e carismática, um ímpeto incomum e uma carreira das mais inusitadas, tendo lançado seu primeiro disco ainda na década de 60, proposto com o melhor acabamento possível a mistura entre o samba e o funk, vivido anos na América Central, e marcando indelevelmente a cena mineira e brasileira com sua torrente criativa.”

Ed Motta sobre Marku Ribas

Enquanto isso, a  mídia mainstream deu maior importância ao fato de que  uma vez, em 1985,  Ribas participou de um clipe com os Rolling Stones, quase ignorando que ao longo de sua carreira de 50 anos, Marku Ribas gravou 12 álbuns, tocou com vários músicos brasileiros e influenciou muitos outros. Enquanto vivia no Caribe, o artista conviveu com  Bob Markey e ao voltar para o Brasil, ele trouxe em suas malas o Reggae e a filosofia rastafári. Marku Ribas também foi um dos primeiros músicos Brasileiros a viajar para a África com a  intenção de pesquisar novos ritmos.

Talvez, o seu trabalho continuará no circuito alternativo. Quem sabe? Mas o certo  é que ele ainda será descoberto e redescoberto por novos artistas e amantes da  música.

Pablo Castro em homenagem a Marku Ribas

Ao perquisar pelos clipes de seus trabalhos no YouTube, foi difícil escolher apenas um ou dois. ” Colcha de Retalhos”, por exemplo, me fez sorrir e rir espontaneamente. Num arranjo surreal, Ribas conseguiu misturar a melancolia da música sertaneja com o otimismo e energia do samba urbano.  No clipe, é possível ver Rolando Boldrim, um dos maiores promotores do “Sertanejo” no Brasil, se contagiar com o ritmo de seu samba.

Para celebrar a vida e a obra de Marku Ribas, aqui vão alguns  clipes :

Colcha de Retalhos

Zamba Ben

Altas Horas

Just Another Night

(Marku Ribas’ participation as a drummer with the Rolling Stones)