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Feliz Aniversário

Oba ! Conseguimos! Berimbaudrum completa 1 ano de idade ! Esta é uma data que merece comemoração, especialmente quando pensamos que apenas 5% dos blogs sobrevivem depois de 3 meses , enquanto o resto é abandonado e esquecido por seus escritores. Muitas vezes eu me refiro ao Berimbaudrum como uma Revista Online sobre World Music. Acho que soa melhor. Tecnicamente, é um blog, talvez um blog glorificado , mas ainda assim um blog. No entanto, uma das conquistas dos últimos 12 meses foi ganhar credibilidade com o público , os músicos e promotores culturais, que não parecem dar a mínima se eu digo “blog ” ou ” revista online” .

É reconfortante ver que pelo menos 70% de vocês continua voltando todo mês, com muitos deixando uma marca através de compartilhamento , comentários e o clique no “curtir”. Em termos de números, este total é modesto na escala inflacionada da websfera , mas são números que representam pessoas reais com uma paixão em comum pela música. Isto traz à mente outra recompensa muito importante: como resultado do processo de desenvolver Berimbaudrum , no ano passado , eu conheci seres humanos dos mais agradáveis, sensíveis, talentosos e humildes. Todos estes seres continuam a me me inspirar com sua coragem, força interior , garra e senso de aventura – qualidades que são muito importantes em uma profissão tão essencial para nosso bem-estar e identidade cultural , mas que nem sempre recebe o merecido valor.

Minha primeira proposta era inverter o jogo e falar sobre World Music através de uma perspectiva diferente daqueles que criaram o rótulo ” World Music “. O que eu contei a todos , e para eu mesma , foi que eu queria promover a cultura Brasileira para além dos estereótipos , mostrando que a música de qualquer lugar se conecta com a música de qualquer outro lugar. Mas o que eu não contei a ninguém , nem mesmo para eu mesma, foi que este  trabalho é o resultado de uma reflexão em torno da tentativa de compreender e aceitar uma fusão cheia de conflitos dentro de minha própria identidade cultural: a de uma cidadã Brasileira morando na Grã-Bretanha , que cresceu ouvindo música britânica em excesso , com a de uma cidadã Britânica nascida no Brasil, aprendendo a apreciar ritmos que haviam sido mal expostos na mídia do próprio país de nascimento , enquanto crescia . Deixei baixar a Carmen Miranda e fiz a festa !

O momento para uma viagem tão introspectiva não poderia ter sido melhor. Música é hoje um dos principais motores da economia digital. Assim como novos estilos musicais do século 20 passaram a dominar o mundo através de tecnologias de comunicação de massa, a web está permitindo uma musical evolução ainda mais rápida com o surgimento de estilos como o Mango Beat. Tambem está permitindo o renascimento de expressões culturais que já se encontravam esquecidas , como o Cordel , um estilo de discurso ritmado que atingiu o seu apogeu durante as décadas de 20 e 30 , no Nordeste do Brasil. O Cordel em si, muitas semelhanças com o Original Rap do Bronx de 1970 em Nova York .

Mídias Sociais tornaram mais fácil entrar em contato diretamente com músicos durante a busca por material para escrever. Isto é algo que, no século anterior, seria mais como a Dorothy tentando conseguir uma audiência com o Wizzard of Oz . Generosamente eles me permitiram pegar carona no Trem Base de fãs, no qual viajei por muitos quilômetros na companhia de um grupo ativo , independente e sofisticado de amantes da música.

Durante esta viagem , eu fiquei deslumbrada com o trabalho pioneiro de Babilak Bah, sua orquestra de enxadas e sua iniciativa de ligar a música com a saúde mental, um trabalho que o levou ao lançamento do Trem Tan Tan, uma banda animada consistindo de ex-pacientes de instituições de saúde mental. Makely Ka , outro músico Brasileiro , me surpreendeu com seu projeto de viajar de bicicleta através do Cerrado e Sertão, enquanto pesquisava e gravava estilos musicais tradicionais. Equipado com um laptop , cuja eletricidade era suprida por horas no pedalo, Makely manteve seus fãs diariamente atualizados com imagens fascinantes da paisagem rural e relatos escritos sobre sua experiência . Titane, Paulinho Pedra Azul e Tizumba me deram a mesma alegria de escrever sobre o trabalho que fazem. Descobri também bandas completamente fora dos moldes , tais Graveola e Banda Previsão do Tempo, uma promessa de um tipo de revolução musical que lembra e vai alem da Tropicália . Na Isle of Wight, uma pequena ilha no sul da Inglaterra, fiquei encantada com a música de Ben Stubbs ,Yours&Mine , David Hughes e a magia do digerido de Joe Caudwell, sobre o qual irei escrever em breve.

Nesta experiência em que aprendi bastante, eu pude constatar o  renascimento musical vindo da África, representado por bandas como Mokoomba. Para completar, e sem vergonha de dizer, fiquei totalmente stars-strucked ao dar de cara com legendas como Milton Nascimento e Courtney Pine, artistas geniais que se tornam verdadeiros shamãs ao subir no palco. O primeiro ano de Berimbaudrum tendo sido, definitivamente uma viagem longa e gratificante que eu não sei quando ou se chegara ao fim. Às vezes, tem sido difícil descrever toda a experiência sem me recorrer a um carnaval de superlativos. O itinerário para os próximos 12 meses já está se definindo com artigos sobre uma série de músicos inovadores.

Eu vou terminar esta reflexão e retrospectiva sobre o  primeiro aniversário de Berimbaudrum , prestando homenagem a Afunakwa , uma mulher da Ilha de Salomão . Em 1969, ela foi surpreendida por um etnomusicologo cantando para uma crianca dormir. O etnomusicologo a gravou e em 1973, sua cantiga chamada Rorogwella,  foi publicada pela UNESCO. Décadas mais tarde, Rorogwella foi disapropriada e comercializada. A tribo de Afunakwa nunca recebeu recompensa pelo sucesso comercial da cantiga . Afunakwa talvez tenha morrido sem nunca saber que sua voz calma e suave continuaria e encantar pessoas de varias partes do mundo. Cantigas de ninar são para a maioria de nós , a primeira e mais significativa experiência com a música. E tais cantigas existem em todas as culturas …

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Marku Ribas

Marku Ribas: Uma Saudade

Marku Ribas foi um artista cujo trabalho mereceu muito mais atenção do que recebeu. Ao longo de sua carreira, ele deu ao seu público uma criatividade com alegria e sem medo de correr riscos. O multi-talentoso e espírito-livre Ribas, foi o artista que oficializou a “polirritmia”, uma técnica de produzir sons com o próprio corpo. Suas performances eram hipnotizadoras e demonstravam um músico bem à frente de seu próprio tempo. Foi com tristeza que soubemos de sua morte, no dia 6 de abril, aos 65 anos de idade em decorrência do câncer.

Até mesmo em morte, Ribas demonstrou mais uma vez seu lado alternativo. Durante 2 dias, Twitter e Facebook foram inundados com mensagens de pêsames e despedidas de seus amigos e de quem teve o privilégio de ter trabalhado com ele. Entre eles, o múmusico Ed Motta, que escreveu ” Marku tinha um talento exuberante demais para os parâmetros da período em que surgiu. E ter talento demais sempre foi desagradável/desconfortável para toda corja que compõe o tal meio musical, seja num editorial de revista ou mesmo na cabeça mercantilista, cara de pau dos próprios ditos “artistas” que foram ensinados como gado obediente que a grande virtude é a merda do disco de ouro na parede. O disco de ouro obviamente é uma metáfora, já que o mercado não existe como era…”  Outro músico que prestou uma homenagem a Marku Ribas, foi Pablo Castro, que ainda escreveu sobre ele no presente: “Marku Ribas é um dos mais exuberantes músicos brasileiros do século XX, dono de uma voz que raiava as vibrações da natureza, de presença vigorosa e carismática, um ímpeto incomum e uma carreira das mais inusitadas, tendo lançado seu primeiro disco ainda na década de 60, proposto com o melhor acabamento possível a mistura entre o samba e o funk, vivido anos na América Central, e marcando indelevelmente a cena mineira e brasileira com sua torrente criativa.”

Ed Motta sobre Marku Ribas

Enquanto isso, a  mídia mainstream deu maior importância ao fato de que  uma vez, em 1985,  Ribas participou de um clipe com os Rolling Stones, quase ignorando que ao longo de sua carreira de 50 anos, Marku Ribas gravou 12 álbuns, tocou com vários músicos brasileiros e influenciou muitos outros. Enquanto vivia no Caribe, o artista conviveu com  Bob Markey e ao voltar para o Brasil, ele trouxe em suas malas o Reggae e a filosofia rastafári. Marku Ribas também foi um dos primeiros músicos Brasileiros a viajar para a África com a  intenção de pesquisar novos ritmos.

Talvez, o seu trabalho continuará no circuito alternativo. Quem sabe? Mas o certo  é que ele ainda será descoberto e redescoberto por novos artistas e amantes da  música.

Pablo Castro em homenagem a Marku Ribas

Ao perquisar pelos clipes de seus trabalhos no YouTube, foi difícil escolher apenas um ou dois. ” Colcha de Retalhos”, por exemplo, me fez sorrir e rir espontaneamente. Num arranjo surreal, Ribas conseguiu misturar a melancolia da música sertaneja com o otimismo e energia do samba urbano.  No clipe, é possível ver Rolando Boldrim, um dos maiores promotores do “Sertanejo” no Brasil, se contagiar com o ritmo de seu samba.

Para celebrar a vida e a obra de Marku Ribas, aqui vão alguns  clipes :

Colcha de Retalhos

Zamba Ben

Altas Horas

Just Another Night

(Marku Ribas’ participation as a drummer with the Rolling Stones)

Milton Nascimento portrait

Milton Nascimento e sua banda encantam a noite Londrina

Milton Nascimento portrait

Milton Nascimento

Milton Nascimento abriu o ano de 2013 em  Londres, com um show no Ronnie Scott’s Jazz Club.  Com uma agenda já lotada, não foi possível conseguir uma entrevista cara a cara. Apesar disso consegui dizer “oi” pessoalmente e agradecer pela entrevista por email. Assistir ao show incrível e poder conversar com o Milton, mesmo que brevemente, complementou uma entrevista que inicialmente era vazia do contato humano. Mas acho importante ressaltar que mesmo sem a cor e o ritmo de entrevistas ao vivo, as respostas que o Milton enviou por email, foram diretas e honestas. Foram respostas que me levaram a pensar sobre a produção musical com uma ótica diferente da qual eu estava seguindo.

E quanto ao show …Ah! O show!… O show foi uma experiência que entrou  para a minha lista de coisas que devem ser vividas, ao lado de outras como nadar com leões marinhos nas Ilhas do Galapagos ou ver a Aurora Boreal.  Tal evento me fez refletir  além de questões que possam ser traduzidas com palavras. Talvez por esta razão eu tenha demorando tanto para escrever este artigo.O desafio de descrever este show, com todo o seu lirismo e magia, é grande.

Confesso com uma certa vergonha, que esta foi a primeira vez que fui ao um show do Milton Nascimento. Esta foi também a primeira vez que eu entrava no Ronnie Scott’s Jazz Club – assim como foi a primeira vez, que Milton Nascimento, nos seus 50 anos de carreira, vinha a se apresentar neste clube mundialmente famoso. Estava passando da hora para nos dois. Do bar, dava para ter uma vista privilegiada do palco. Com uma capacidade para 250 pessoas, Ronnie Scott’s tem o tamanho ideal para quem realmente curte música. Os ingressos para o show do Milton  foram  esgotados para os todos as quatro apresentações naquele clube.

A banda da Casa

“Um dia que será difícil de ser batido – entrevistando @milton_bituca para @officialronnies Radio, abrindo o show para ele e cantando “Travessia” (Georgia Mancio no Twitter)”

O show foi aberto pela banda da casa,  “Ronnie Scott’s All Stars”,  com Georgia Mancio como vocalista. Um dia antes, no 25 de Janeiro, ela escreveu no Twitter  ” Um dia que será difícil de ser batido – entrevistando @milton_bituca para @officialronnies Radio, abrindo o show para ele e cantando Travessia” . Georgia compartilhou a entrevista com o publico e repetiu uma estória que ouviu do próprio Milton, quando este interpretou uma música do Tom Jobin, e o viu entrar no palco, bater no piano e dar a bronca: “ Esta não é minha musica!”.  Milton explicou ao Tom Jobim que ele era um intérprete e estava fazendo uma “interpretação”. Em seguida,  Georgia Mancio explicou que também é uma intérprete. De presente,  ela encantou a todos com a sua versão de Travessia. Com James Pearson no piano, Sam Burguess no baixo duplo e Dave Ohm na bateria, foi uma introdução que já fez valer a pena estar naquele lugar. Não! Milton não correu ao palco para interromper  o canto de Georgia, da mesma forma que Tom Jobim o fez. E como poderia? A interpretação de Travessia por Georgia Mancio foi simplesmente belíssima. Ela conseguiu trazer toda a profundeza da emoção que é tão importante para se interpretar uma música tão forte.

Milton entra no palco

Uma banda de peso acompanhou o Milton durante o show. Ele veio com:

  • o pianista  Kiko Continentino,  reconhecido pela sua versatilidade e especialisação na obra de Tom Jobim,
  • o guitarrista Wilson Lopes, que já integrou a banda “Edição Brasileira” com o maestro Mauro Rodrigues,
  • o baixista Gastao Villeroy , que se juntou a banda de Milton para co-produzir e gravar o DVD “Pietá”,
  • o grande baterista Lincoln Cheib, que já foi integrante da banda “Sagrado Coração da Terra”,
  •  o saxofonista Widor Santiago, que é  responsável por inúmeras trilhas sonoras para programas da TV Globo.

“Uma canção sem nome e sem letra, porque uma pessoa esta dentro dela”

Milton entra no palco, caminhando devagar. Os músicos de sua banda o ajudam discretamente a se mover entre os instrumentos e equipamentos, evitando tropeços.  E assim ele  abre  o show cantando Cais. Sua voz etérea, meio gótica, meio angelical, hipnotiza a audiência. E quando começa a cantar “Cravo e Canela”,  este senhor de 70 anos se transforma num gigante jovial. Em um instante, ele nos presenteia com uma canção que compôs para sua Mãe.  Uma canção sem nome nem letra, “porque a pessoa esta dentro dela” – como ele mesmo explicou.

Como nunca poderia faltar, Milton encanta a todos com “Para Lennon & McCartney”  . Num passe de mágica, ele consegue tirar do armário, todos os Brasileiros  presentes no clube. Os Brazucas , que já não eram invisíveis, fazem o coro,  acompanhando a música com o ritmo de palmas. Milton improvisa bem no estilo jazz e faz um refrão da parte “do lixo occidental”, caminha em direção a platéia e aponta o microfone para o público,  que repete melodicamente:  “do lixo, do lixo, do lixo occidental” . Todos continuam juntos a cantar com muita animação:  “Eu sou da América do Sul / Porque vocês não vão saber/ Mas agora eu sou cowboy/ Sou do Ouro/ Eu sou vocês/ Sou do mundo/ Sou Minas Gerais/”.  O momento foi simplesmente catártico. Era mais do que música. Era como ouvir um recital de poesia cheio de rebeldia discreta e gosto pela vida.

Ao tocar Maria Maria, uma música sobre força e coragem, toda a audiência se transformou em Marias, incluíndo o próprio Milton Nascimento, que nos mostrou toda sua garra, sua dor,  sua alegria, sua graça e sua habilidade de sempre ter um sonho. A este ponto, o público Britânico, já tinha perdido sua  formalidade e resistência, e também se transformou em “Marias”, acompanhando a música com palmas e cantando o refrão final “ La ue la laaa la ue la la la la ue, la la la laaaaa lau eu, la la la la la ra la la, la ra la ra la la la la la….” E assim continuamos a repetir o final da canção, que na verdade, não queríamos que terminasse – a nossa própria resposta para “Hey Jude”. De repente o refrão de Maria Maria se misturou com “Mais um, Mais um, Mais um” enquanto Milton e sua banda se retiravam do palco. Alguns minutos depois eles retornam para fechar a noite com a sublime  “Travessia”.

Conversando com o Milton

Foram não mais que cinco minutos que consistiram de um introdução, um aperto de mão e um muito obrigada por enviar as respostas das minhas perguntas por email. O gigante jovial ainda estava presente, mas em sua forma humana, que é ainda mais interessante, mostrando todas marcas do tempo bem  neste nosso planeta. Haviam muitas perguntas que eu gostaria de fazer, mas depois de um show tão intenso,decidi não incomodá-lo por mais do que aqueles cinco minutos.  Assim dizendo,  me contentei com as respostas enviadas por ele, alguns dias antes.

Respostas reveladoras a perguntas mal pesquisadas

Devo reconhecer que  algumas das perguntas que enviei ao Milton Nascimento foram mal pesquisadas. Não é que eu estava totalmente por fora. Mas Milton Nascimento é um artista com uma presença significante em Minas Gerais. E difícil lembrar que ele nasceu no Rio e tem morado na capital carioca por mais de 40 anos. Em tudo que se refere a Minas Gerais, suas canções inevitavelmente surgem como fundo musical. Por mais que ele insista que não é de Minas, o estado montanhoso  o adotou na marra como um de seus filhos mais ilustres. Mas ele deixou bem claro, que não faz música mineira: Milton  faz música. Ele também revelou que nunca levou a sério o rótulo ” World Music” e que o Clube da Esquina nunca foi um clube “Uai”. 🙂

Berimbaudrum introdução: Os últimos desenvolvimentos em Mídia Digital, especificamente em relação a distribuição, afetou profundamente a indústria de música, levando grandes gravadoras e distribuidoras ao colapso financial, como recentemente vimos a liquidação da HMV. Ao mesmo tempo, estes mesmos desenvolvimentos trazidos pela web (itunes, soundcloud, youtube, etc…) criaram oportunidades que não existiam antes para músicos independentes. A percepção  é  a de que músicos independentes Brasileiros são os mais pro-ativos no uso das mídias digitais, não apenas em termos de divulgação, como também de distribuição e desenvolvimento.  Poderíamos dizer que, mais do que nunca, através da Internet, os músicos Brasileiros estão indo “aonde o povo esta”, como você canta em os Bailes da Vida.  Apesar da diferença ser   de que muitas das estradas de terra dos internautas são virtuais, a Internet é ainda como se fosse um sertão, um velho oeste, que ainda exige muita determinação, energia e fé. Temos por exemplo, a banda mineira ” Graveola e o Lixo Polifonico “, que lançou todos os seus álbums na web. Baseando nestas informações, as minhas perguntas a você, Milton, são:

Ronise:  Se você estivesse começando a sua carreira hoje, qual seria a direção que você tomaria, considerando que as oportunidades e barreiras são muito diferentes ?

  • Milton Nascimento : É impossível pensar nisso, até porque eu não comecei minha carreira calculando que direção tomar. Inclusive, eu nunca fiz projeção de nada em toda minha vida. Assim como eu nunca gravei disco ou participei de algum projeto pensando num objetivo, numa finalidade, principalmente comercial. A única coisa que eu penso é na música em si e, se isso vai me trazer algum retorno, é apenas uma consequência da dedicação àquilo que eu amo.

Ronise: Quando você começou a sua carreira,  estávamos passando por mudanças muito profundas na nossa sociedade, apesar da opressão militar em quase todos os aspectos da vida dos Brasileiros. Hoje, temos um Brasil com um nível admirável de participação popular política,   cumprindo a promessa da nação do futuro. Qual é a sua visão desta nova realidade como artista, como cidadão do mundo, como Brasileiro, como Mineiro e como pessoa?

  • Milton Nascimento: Sem dúvida nenhuma que tivemos um avanço enorme no Brasil nos últimos anos, mas infelizmente ainda existe uma lista enorme de coisas que ainda precisam ser feitas. E o primeiro ponto que deve ser abordado com extrema urgência é a questão educacional. Se os governos dessem prioridade à educação de nossas crianças mais da metade de nossos problemas seriam resolvidos. É inaceitável um país com tantos recursos ter um dos piores níveis educacionais do planeta. As universidades públicas, assim como as escolas, estão completamente sucateadas e, o pior, os professores ganham mal e os alunos não tem qualquer tipo de estrutura. Como vamos ser o país do futuro se não cuidamos de nossos jovens?

Na verdade, eu não levo muito a sério esse negócio de World Music, pois pra mim, tudo é música e ponto final.

Ronise: A internet esta contribuindo para a promoção da tão chamada World Music, o que muitos críticos  consideram como o novo Rock in Roll. Evidentemente o termo “World Music” surgiu de uma perspectiva Britanica-Americana. Quais mudanças você prediz em relação ao espaço conquistado pela  música Brasileira na categoria World Music?

  • Milton: Na verdade, eu não levo muito a sério esse negócio de World Music, pois pra mim, tudo é música e ponto final. E o espaço da música brasileira no mundo começou a ser traçado desde que Pixinguinha correu o mundo com Os Oito Batutas. Depois disso, veio o furacão da Bossa Nova, com Tom, João e Vinicius abrindo os caminhos para a geração que veio depois, Gil, Caetano, Chico… Então, hoje a música brasileira já alcançou seu espaço há muito tempo.

Ronise: O seu estilo musical, e em geral, o estilo musical em Minas Gerais, ( pelo qual você tem recebido créditos como um dos músicos de maior influencia), se destaca de forma distinta por fugir de muitos dos estereótipos difundidos sobre o Brasil no exterior. Porem grande parte destes estereótipos são causados pela perda de valores culturais durante a tradução. Com a sua experiência fora do Brasil, o que você acredita serem os pontos de maior risco de serem estereotipados em relação a musica mineira, e quais são os pontos capazes de resistir a esta tendência?

  • Milton: Mais uma vez tenho que dizer, eu nunca faço nada pensando num objetivo final. Outra coisa, eu não faço música mineira, eu simplesmente faço música. E quem coloca os estereótipos é uma parcela da imprensa que sempre tende a rotular tudo.

Ronise: Milton, acredito que como artista, você serviu de inspiração a uma série de músicos que te seguiram desde a década de 70 ate agora. E isto não apenas em termos de estilo musical, como também e principalmente no espírito independente, inovador e próximo da audiência. A minha percepção e a de que os artistas independentes mineiros de hoje tomaram para si a frase ” todo artista deve ir aonde o povo esta” seriamente como um mantra que seguem dia a dia. Porem, há ainda aqueles que consideraram o liderança musical de Minas nas décadas de 70 ate 90, dito o “Clube da Esquina”, como um clube exclusivo e fechado, monopolizando a cena musical de Minas. Qual e a sua percepção e posicionamento neste assunto?

Primeiro, o Clube da Esquina nunca foi um clube. Um clube tem que ter sócios, sede e estatuto. E o Clube da Esquina também nunca foi um movimento, porque movimento tem que ter certo embasamento sociológico. Clube da Esquina é apenas uma calçada entre as ruas Divinópolis e Paraisópolis localizado no bairro de Santa Tereza onde um grupo de amigos se reunia nos anos 1960\1970 pra fazer música e jogar conversa fora.

  • Milton:Primeiro, o Clube da Esquina nunca foi um clube. Um clube tem que ter sócios, sede e estatuto. E o Clube da Esquina também nunca foi um movimento, porque movimento tem que ter certo embasamento sociológico. Clube da Esquina é apenas uma calçada entre as ruas Divinópolis e Paraisópolis localizado no bairro de Santa Tereza onde um grupo de amigos se reunia nos anos 1960\1970 pra fazer música e jogar conversa fora. Agora, não entendo isso que você falou de monopólio. Se for assim, então Skank, Jota Quest, Pato Fu e Sepultura monopolizam a cena do rock mineiro e, por serem bandas, podem ser consideradas ainda mais fechadas e exclusivas do que qualquer coisa. Outra, não sei se você sabe, mas eu moro no Rio de Janeiro desde 1967, então, como eu posso fazer parte de um cenário monopolizado do qual eu me encontro fora há mais de quarenta anos? Ao invés de discutirmos “monopólio” e “exclusivo” poderíamos falar de como Minas Gerais entrou no mapa da música mundial depois do trabalho feito por nós a partir dos anos 1960 e o trabalho feito hoje por Sepultura, Skank e muitos outros talentos que surgiram depois da gente.
Tizumba Banda AfroReggae

Tizumba: Resgatando e valorizando a cultura Afro-Brasileira

 

Eu tenho planejado escrever sobre Tizumba desde a primeira edição do Berimbaudrum. Eu nunca poderia falar sobre a música de Minas Gerais, sem falar de Maurício Tizumba. Quando eu o conheci durante as Calouradas da Fafi-BH, em 1990, todos nós poderíamos ver que este músico era realmente especial. Seu sorriso espontaneo e a sinceridade em seus olhos, que eu tentei capturar em uma foto, tornou-se um tipo de ícone que utilizamos no material de divulgação do nosso DCE (Departamento Central de Estudantes).

Mauricio Tizumba nas Calouradas da Fafi-BH em 1990

Mauricio Tizumba nas Calouradas da Fafi-BH em 1990

Maurício Tizumba é considerado pela crítica brasileira como uma  show-man completo. O cantor, ator, dançarino, comediante e compositor do estado de Minas Gerais, tem impressionado o público por mais de 30 anos. Seu carisma é de quebrar qualquer gelo e suas apresentacoes são cheias de humor e originalidade. No entanto, o trabalho de Tizumba é coerente e consciente.

Durante toda a sua carreira, ele tem se empenhado em resgatar e renovar as tradições culturais de uma forma ludica, inspiradora e educativa. Em 1996, juntamente com Regina Spósito, Maurício Tizumba criou a  Cia Burlantis, com o objetivo de democratizar o acesso do público às artes. Cia Burlantis tem, desde a sua criacao, conquistado diversos prêmios com suas produções scenico musicais realizadas nas ruas, parques, fábricas, universidades, festivais de teatro e muitos outros lugares e eventos em Minas Gerais.

Tizumba também tem estado ocupado promovendo o Congado. Em 2002, ele fundou o curso “Tambor Mineiro”, no qual, de uma forma lúdica,  os alunos aprendem os ritmos, passos de dança e canções do Congado . Os alunos do Tambor Mineiro vêm se apresentando com frequência e cativando o público por onde quer que passem.

Maurício Tizumba Official Links

http://www.tizumba.com/

http://www.festejotambormineiro.com.br/

English/ Ingles

Ponto de Partida

Finalmente uma versão em Português:

Quando comecei a escrever Berimbaudrum (um blog sobre World Music com uma perspectiva Brasileira), não me passava pela cabeça  que eu acabaria desenvolvendo uma versão em Português. Eu digo versão porque uma tradução fiel ao original não faria  sentido para a audiência Brasileira. Afinal de contas, os artistas Brasileiros  sobre quem  tenho escrito aqui não precisam de apresentações na nossa terra Tupi. Devo também acrescentar que as diferenças culturais acabariam fazendo com que muitas das idéias se perdessem na tradução.

Confesso que a demora da versão Brasileira do Berimbaudrum se deve a insegurança com a minha própria  língua-mãe. Tanto tempo escrevendo em Inglês, acabou enferrujando o meu Português. Enquanto a falta de circunflexos e agudos podem ser desculpados pela falta dos mesmos no meu teclado, deixarei as correções gramáticais e ortográficas para os pedantes da linguagem, que sei que são muitos. Apesar de temer que os meus erros gramaticais serem expostos publicamente, estas mesmas pessoas a qual chamo de pedantes, são muito bem vindas. Afinal de contas, será através delas que saberei que o meu trabalho esta sendo lido. Mas gostaria de que mais do que lido, que seja entendido, discutido e transformado enquanto aprendo mais com vocês.

Mas afinal de contas, o que e World Music?

“World Music” é uma expressão tão equívocada. Afinal de contas  o que é “música do mundo” quando qualquer música pode ser considerada  “Música do Mundo”? A partir da perspectiva de grandes gravadoras baseadas nos Estados Unidos e Reino Unido, “World Music” é tudo o que não é Americano ou Britânico, confirmando assim a  perspectiva eurocentrica. É mais um sinônimo de “exótico”, música que se toca em um café da moda em Londres, Paris, São Francisco ou Nova York. Mas, quando estes mesmos sons, também considerados tradicionais ou folclóricos se misturam com a música altamente comercial, nos perguntamos se a “Música do Mundo” está se espalhando ou se diluindo. Esta mesma pergunta revela a minha própria agenda pessoal: promover a música do meu país de origem. Eu vim do Brasil, um lugar bem conhecido por sua rica musicalidade. No entanto, como um número de Brasileiros da minha geração, eu cresci ouvindo mais músicas Inglesas e Americanas do que Brasileiras. Como é que isso veio a acontecer, é algo que eu gostaria de explicar mais tarde, apesar de que acho que isto não seria necessário para uma audiência Brasileira.

Não foi até quando cheguei a Universidade, para estudar Jornalismo,  que eu comecei a prestar mais atenção e aprendi a apreciar a música Brasileira. Entre o público universitário, havia um interesse forte pela nossa música, não só pelas canções tradicionais como também as sons originais. As Universidades Brasileiras dos anos 80 e 90 se tornaram um oásis para músicos independentes. Uma vez que eu me mudei para a Inglaterra, fiquei surpresa ao descobrir que a maioria das músicas Brasileiras no exterior já tinham mais de 30 anos. Meus novos amigos se surpreendiam quando eu os introduzia ao rock brasileiro. Muitas vezes, seus comentários, seguidos de uma pausa em que pareciam estar escolhendo cuidadosamente as palavras certas para dizer, eram: “Parece bastante moderno”. Tais declarações surgiam como se musica Brasileira não pudesse ser moderna, como se moderno era um eufemismo para “civilizado”, “sofisticado” ou mesmo “de bom gosto”. Embora esta situação mudou um pouco, graças à Internet, o estereótipo dominante sobre a música Brasileira ainda é a de Carmen Miranda com uma tigela de frutas na cabeça, cantando e dançando em tamancos, enquanto uma banda toca maricas no fundo. Ao mesmo tempo, “Bossa Nova” é reduzida  a canção “Garota de Ipanema”. Muito mais preocupante é quando perguntamos a alguns Norte-americanos e Britânicos, que música vem à  mente quando se fala sobre o Brasil e eles costumam dizer é “Copacabana”, de Barry Manillow, enquanto procuramos por um lugar para esconder antes que comecem a cantar a tal música com movimentos desengonçados.

Promover a música brasileira é apenas uma pequena parte da intenção do Berimbaudum. Eu não poderia ignorar a música do resto do mundo, onde sempre podemos encontrar semelhanças e inspiração. Senegal é um bom exemplo atual de música que esta se despontando mundialmente. Além do mais, a música Brasileira tem adotado todos os estilos musicais desde que viemos a nos entender como parte de uma nova nação. A partir da formação de nossa cultura, fomos influenciados pela música do mundo inteiro. Nós aceitamos o Rock-in-Roll (mesmo que nos tenha sido empurrado com cada gole de coca-cola), disco, techno-pop, hip-hop, Rap e misturamos tudo com os nossos próprios sons. Muitas vezes esta aceitação se expressou com um entusiasmo alienante. Outras vezes, apesar de uma certa relutância,  novos estilos híbridos surgiram da nossa estratégia de “se adaptar para sobreviver”.

Vale ressaltar que eu não tenho nenhuma intenção de criar um catálogo online sobre música do mundo. A National Geographic fez isso. Eu também não pretendo escrever sobre o que é o mais recente neste gênero. Publicações como “ The Guardian também  já fizeram isso. Nem é a minha intenção oferecer material de aprendizagem online. Coursera já tem oferecido um curso gratuito on-line chamado “Listening to World Music”. Berimbaudrum é apenas o meu “trabalho de amor” em que através de uma forma pessoal, espero surpreender, provocar e envolver você em discussões que não se limitam  a conversas sobre harmonia e escalas melodias, sem nos esquecermos de nos divertir ao longo do caminho. Afinal, esta é uma viagem – uma viagem boa, em que eu também procuro aprender mais e descobrir novas perspectivas que vão além da visão de uma Brasileira que vive no Reino Unido, ou de uma Britânica que nasceu no Brasil.

Sim, seria bom apenas limitar esta aventura em volta das qualidades estéticas das canções. Mas eu ficaria entediada muito rapidamente, e aposto que vocês também ficariam. Abordar os aspectos históricos, políticos, ambientais, tecnológicos e sociais que inspiram artistas é o que faz com que este tema seja tão interessante.

Rorogwela: doce cantiga de ninar das Ilhas Salomão vendida como música de pigmeus

“Sasi sasi ae o angisi nau Boroi nima oe e fasi koro na Dolali dasa na, lao dai afuimae Afuta guau mauri, Afuta wela inomae

Irmão mais novo, irmão mais novo hein? embora você está chorando para mim , seu pai nos deixou, ele foi para o lugar dos mortos.  Proteja esta vida, proteja a criança órfã”…

Embora Rorogwella tenha ganho popularidade em 1992, quando foi gravada por Deep Forest como uma música techno-dance,  foi  em 1969 que esta cantiga de ninar foi registrada pela primeira vez pelo etnomusicólogo Hugo Zampin, como uma amostra vocal. A voz suave  da cantiga era de Afunakwa, uma mulher vinda do norte das Ilhas Salomão. Em 1973, Rorogwela foi gravada em um LP como parte da coleção da UNESCO de Música Tradicional do Mundo

O uso de Rorogwella por Deep Forest criou polêmica, não só por causa de sua comercialização, mas também devido a outros fatores, tais como:

  • Sua apropriação fora do contexto original
  • O fato de que sua origem foi erradamente atribuída por Deep Forest como vinda de uma tribo de pigmeus da África Central.
  • A comunidades das Ilhas Salomão, de onde veio Afunakwa não recebeu nenhum direito autoral e não se beneficiaram de seu enorme sucesso comercial.

É desconcertante descobrir que a música a qual muitos dançaram  tanto nos anos 90, foi tão auterada de sua originalidade. Assim como Matt Harding fez em 2003,  fomos todos levados pela batida eletrônica do remix:

Em 2007, Matt Harding, ao descobrir sobre a polêmica desta música, decidiu ir em busca de Afunakwa e produziu outro hit no youtube:

No vídeo, Matt fala com David Solo, um primo de Afunakwa. Infelizmente, Matt descobriu através de David que Afunakwa  já morrido há muitos anos. Solo, cuja mãe era Afunakwa prima-irmã, tentou traduzir as letras para Matt,  explicando que isso seria uma tarefa difícil, pois  muitas das palavras da cantiga já não são mais usadas e, portanto, não  são conhecidas pela geração mais jovem de sua tribo.

Graceland Youtube clip

Graceland: Da quebra de um boicote ao lançamento da World Music

“Estes são os dias de milagre e maravilha…

Isto é uma chamada de longa distância…”

Graceland poderia ter sido um desastre histórico e o fim da carreira de Paul Simon. Em vez disso, tornou-se uma ponte sobre águas turvas. O álbum, que causou muita controvérsia,  trouxe  músicos Sul-Africanos para a atenção do mundo, como Ladysmith Black Mambazo, Youssou N’Dour, Miriam Makeba  e Hugh Masekela.  Apesar de que tinha tudo para dar errado , acabou como o álbum mais bem sucedido de Paul Simon, vendendo mais de 14 milhões de cópias desde seu lançamento em 1986. O momento não poderia ter sido mais arriscado, com Nelson Mandela na prisão e ainda com um boicote cultural das Nações Unidas contra o regime do Apartheid na Africa do Sul, que vigorava na época. Enquanto Paul Simon era acusado de quebrar o boicote, muitos artistas sul-africanos  o defenderam por ter criado uma ponte que permitiu a rica herança musical Sul Africana alcançar o resto do mundo. Agora  todos os argumentos e críticas contra a iniciativa de Paul Simon, em 1986,  são águas passadas, com a maior parte da estória disponível na Internet. Um dos meus blogs favoritos sobre este assunto é o de Ethan Zuckerman, fundador do Global Voices, em que ele conta a história completa por trás da produção de Graceland no post “Graceland de Paul Simon e lições para xenophiles”( “Paul Simon’s Graceland and lessons for xenophiles”).

Tomar inspiração de outras culturas é algo que os músicos sempre fizeram. Este processo pode muitas vezes acontecer por meio de assimilação,  aculturalização, ou mesmo apropriação. Graceland foi diferente porque teve uma  abordagem mais criativa  e involveu uma colaboração entre parceiros. Como revelado em vários documentários, Paul Simon não tinha as músicas prontas no início do projeto. Ele reuniu as bandas no estúdio e pediu-lhes para tocar músicas improvisadas, que foram, então, amendadas em sessões diferentes de gravação. Canções como “The Boy in the Bubble”, “I know what I know”, “Gumboots”, “Homeless” e “Diamonds in the sole of her shoes”, onde os artistas Sul-Africanos compartilharam  os créditos de composição com Paul Simon, são bons exemplos deste processo. No entanto, talvez  parte da polêmica em torno de “Graceland” foi o fato de que, devido às questões políticas na África do Sul naquela época, havia uma expectativa de que  Simon iria produzir um álbum beneficente. Acho importante diferenciar um “álbum beneficiente” de um “álbum colaborativo”. Álbuns beneficientes podem ser registrados desde o “Concerto para Bangladesh” de George Harrison, em 1971.  Em 1984, tivemos Bob Geldof  com “Do they know is Christmas” e  o concerto LiveAid. O album do Bob Geldof era muito mais ambicioso do que o de George Harrison. Além do mais  não houve colaboração com artistas Africanos. No  “Concerto para Bangladesh” havia  pelo menos a colaboração  com Ravi Shankar.

Não é de se surpreender que  haja cinismo em torno dos álbuns beneficientes. Ficam no ar as perguntas: Quem é que está realmente sendo beneficiando, quando um desastre se transforma em uma festa e um espetáculo é tão grande quanto uma tragédia? Quais são as reais intenções por trás das celebridades envolvidas, quando, durante um ponto baixo na carreira, suas ações podem ser traduzidas em mais uma oportunidade para promoção? Quem monitora os processos para se certificar de que a maior parte do dinheiro arrecadado é usado para cumprir os seus objectivos iniciais, enquanto seria ridiculamente ingênuo acreditar que todo esse dinheiro possa atravessar fronteiras,  passar por mercenários, políticos locais e rebeldes do exército sem qualquer subtração? No caso do LiveAid, um concerto que adquiriu uma aura sagrada, qualquer questionamento pode ser tratado como uma blasfêmia insultante, como foi experimentado pelo colunista do The Guardian,  Rageh Omaar. Em 2010, Omaar escrever o artigo “Mesmo Band Aid  não está acima de críticas”(Even Band Aid is not above criticism ) e recebeu ataques ferozes diretos do Bob Geldof.

Críticos de álbuns beneficientes e concertos acreditam que esses eventos reforçam o etnocentrismo Europeu, ignorando as questões políticas por trás de desastres ambientais. Eles são transformados em uma forma para os ricos nos países desenvolvidos aliviar facilmente o sentimento de  culpa através de obras de caridade, enquanto roubam a dignidade daqueles que são “ajudados”. Afinal, o que poderia ser mais condescendente do que cantar “E não haverá neve na África neste tempo de Natal … O maior presente que vai ter este ano é a vida .. (Oooh) Onde nada nunca cresce … Nem chuva nem rios .. Será que eles sabem que é tempo de Natal, afinal? ”

No entanto, o trabalho de Bob Geldof se tornou um modelo para álbuns beneficientes: músicos famosos em todo o mundo eram recrutados para participar desses álbuns de acordo com a sua base de fãs. Logo depois de “Do they know is Christmas”, Michael Jackson organizou um trabalho semelhante com outros  artistas, incluindo Paul Simon, para gravar “We are the world”, sob o título “EUA para a África”. “We are the World” teve tanto a ver com a música do mundo como “Do they know is Christmas”. Mais uma vez, não houve nenhuma participação de artistas Africanos. Este fato inspirou Peter Gabriel a lançar a gravadora RealWorld , que foi uma das primeiras gravadoras a  distribuir  World Music. A partir de meados dos anos 80,  a crise humanitária da África ainda era notícia de manchetes. A Guerra Fria estava se tornando irrelevante, especialmente com a desintegração da União Soviética e a queda do Muro de Berlim. As ditaduras militares criadas pelos EUA, França e Reino Unido na América Latina, em sua tentativa de impedir de que qualquer  uma dessas nações se tornassem socialistas, também foram terminando com a entrega de poder dos militares para governos democraticamente eleitos. O conceito de Primeiro, Segundo e Terceiro mundos também comecou a mudar. Originalmente, após a Segunda Guerra Mundial, falava-se apenas de  primeiro e segundo mundos. Estes conceitos eram usados ​​para representar um mundo dividido pelos blocos capitalistas e  socialistas. Em 1952, Alfred Sauvy, um historiador Francês, cunhou o termo terceiro mundo em um artigo escrito para L’Observateur, para categorizar os países que tomaram uma posição neutra. Foi mais tarde que a mídia explorou este termo para se referir às nações mais pobres ou nações que não seguem o mesmo modelo de desenvolvimento dos Estados Unidos e Europa.

Enquanto isso, no Brasil, a cobertura da crise humanitária na África estava causando uma reação mista. Embora houvesse muita simpatia pela situação em Etiópia, ativistas locais lutavam  pela mesma atenção para uma crise humanitária semelhante no Brasil. A região nordestina estava passando por uma seca severa e fome que duravam décadas. Inspirado pelo Live Aid e USA for África, um grupo de artistas Brasileiros se reuniram para um álbum beneficente para  o Nordeste do Brasil, chamado “Nordeste Já” . O videoclipe da canção “Chega de mágoa” , reúne artistas brasileiros de todo o país, representando a diversidade étnica e musical do Brasil. Os produtores seguiram o mesmo modelo criado por Bob Geldof.

É interessante notar o contraste entre o clipe de “Chega de mágoa” e outro clipe do mesmo álbum chamado Seca D’agua .

Enquanto o  primeiro clipe conta com a participação de artistas de todo o Brasil, Seca D’Agua é composto apenas por artistas do Nordeste. Um dos versos faz uma referência direta à situação na Etíopia “eles estão sofrendo por lá, mas o maior sofrimento é nessas bandas de cá” , o que talvez revele um ressentimento em relação ao fato de que a mídia ignorou as tragédias nacionais em favor de temas internacionais. Esta situação foi percebida como um paradoxo para muitos Brasileiros que debatiam sobre quem precisava de mais ajuda: aqueles em um país distante ou aqueles em casa? No entanto, no Brasil, o álbum “Nordeste Já” vendeu menos do que “We are the World”.

Apesar da cobertura da Etiópia em 1986, quando Graceland foi lançado, nós Brasileiros em geral não sabiamos com detalhes sobre o que estava acontecendo na África, especialmente na África do Sul. Isso mudou com Graceland. Em 1989, Paul Simon chega ao Brasil para produzir o álbum “Rhythm of Saints” com o grupo Olodum, que até 1990, não eram muito conhecidos fora do estado da Bahia.


A batida peculiar do Olodum foi usada por Paul Simon como a abertura para a música “Obvious Child” do álbum Rhythm of Saints.