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Ponto de Partida

Finalmente uma versão em Português:

Quando comecei a escrever Berimbaudrum (um blog sobre World Music com uma perspectiva Brasileira), não me passava pela cabeça  que eu acabaria desenvolvendo uma versão em Português. Eu digo versão porque uma tradução fiel ao original não faria  sentido para a audiência Brasileira. Afinal de contas, os artistas Brasileiros  sobre quem  tenho escrito aqui não precisam de apresentações na nossa terra Tupi. Devo também acrescentar que as diferenças culturais acabariam fazendo com que muitas das idéias se perdessem na tradução.

Confesso que a demora da versão Brasileira do Berimbaudrum se deve a insegurança com a minha própria  língua-mãe. Tanto tempo escrevendo em Inglês, acabou enferrujando o meu Português. Enquanto a falta de circunflexos e agudos podem ser desculpados pela falta dos mesmos no meu teclado, deixarei as correções gramáticais e ortográficas para os pedantes da linguagem, que sei que são muitos. Apesar de temer que os meus erros gramaticais serem expostos publicamente, estas mesmas pessoas a qual chamo de pedantes, são muito bem vindas. Afinal de contas, será através delas que saberei que o meu trabalho esta sendo lido. Mas gostaria de que mais do que lido, que seja entendido, discutido e transformado enquanto aprendo mais com vocês.

Mas afinal de contas, o que e World Music?

“World Music” é uma expressão tão equívocada. Afinal de contas  o que é “música do mundo” quando qualquer música pode ser considerada  “Música do Mundo”? A partir da perspectiva de grandes gravadoras baseadas nos Estados Unidos e Reino Unido, “World Music” é tudo o que não é Americano ou Britânico, confirmando assim a  perspectiva eurocentrica. É mais um sinônimo de “exótico”, música que se toca em um café da moda em Londres, Paris, São Francisco ou Nova York. Mas, quando estes mesmos sons, também considerados tradicionais ou folclóricos se misturam com a música altamente comercial, nos perguntamos se a “Música do Mundo” está se espalhando ou se diluindo. Esta mesma pergunta revela a minha própria agenda pessoal: promover a música do meu país de origem. Eu vim do Brasil, um lugar bem conhecido por sua rica musicalidade. No entanto, como um número de Brasileiros da minha geração, eu cresci ouvindo mais músicas Inglesas e Americanas do que Brasileiras. Como é que isso veio a acontecer, é algo que eu gostaria de explicar mais tarde, apesar de que acho que isto não seria necessário para uma audiência Brasileira.

Não foi até quando cheguei a Universidade, para estudar Jornalismo,  que eu comecei a prestar mais atenção e aprendi a apreciar a música Brasileira. Entre o público universitário, havia um interesse forte pela nossa música, não só pelas canções tradicionais como também as sons originais. As Universidades Brasileiras dos anos 80 e 90 se tornaram um oásis para músicos independentes. Uma vez que eu me mudei para a Inglaterra, fiquei surpresa ao descobrir que a maioria das músicas Brasileiras no exterior já tinham mais de 30 anos. Meus novos amigos se surpreendiam quando eu os introduzia ao rock brasileiro. Muitas vezes, seus comentários, seguidos de uma pausa em que pareciam estar escolhendo cuidadosamente as palavras certas para dizer, eram: “Parece bastante moderno”. Tais declarações surgiam como se musica Brasileira não pudesse ser moderna, como se moderno era um eufemismo para “civilizado”, “sofisticado” ou mesmo “de bom gosto”. Embora esta situação mudou um pouco, graças à Internet, o estereótipo dominante sobre a música Brasileira ainda é a de Carmen Miranda com uma tigela de frutas na cabeça, cantando e dançando em tamancos, enquanto uma banda toca maricas no fundo. Ao mesmo tempo, “Bossa Nova” é reduzida  a canção “Garota de Ipanema”. Muito mais preocupante é quando perguntamos a alguns Norte-americanos e Britânicos, que música vem à  mente quando se fala sobre o Brasil e eles costumam dizer é “Copacabana”, de Barry Manillow, enquanto procuramos por um lugar para esconder antes que comecem a cantar a tal música com movimentos desengonçados.

Promover a música brasileira é apenas uma pequena parte da intenção do Berimbaudum. Eu não poderia ignorar a música do resto do mundo, onde sempre podemos encontrar semelhanças e inspiração. Senegal é um bom exemplo atual de música que esta se despontando mundialmente. Além do mais, a música Brasileira tem adotado todos os estilos musicais desde que viemos a nos entender como parte de uma nova nação. A partir da formação de nossa cultura, fomos influenciados pela música do mundo inteiro. Nós aceitamos o Rock-in-Roll (mesmo que nos tenha sido empurrado com cada gole de coca-cola), disco, techno-pop, hip-hop, Rap e misturamos tudo com os nossos próprios sons. Muitas vezes esta aceitação se expressou com um entusiasmo alienante. Outras vezes, apesar de uma certa relutância,  novos estilos híbridos surgiram da nossa estratégia de “se adaptar para sobreviver”.

Vale ressaltar que eu não tenho nenhuma intenção de criar um catálogo online sobre música do mundo. A National Geographic fez isso. Eu também não pretendo escrever sobre o que é o mais recente neste gênero. Publicações como “ The Guardian também  já fizeram isso. Nem é a minha intenção oferecer material de aprendizagem online. Coursera já tem oferecido um curso gratuito on-line chamado “Listening to World Music”. Berimbaudrum é apenas o meu “trabalho de amor” em que através de uma forma pessoal, espero surpreender, provocar e envolver você em discussões que não se limitam  a conversas sobre harmonia e escalas melodias, sem nos esquecermos de nos divertir ao longo do caminho. Afinal, esta é uma viagem – uma viagem boa, em que eu também procuro aprender mais e descobrir novas perspectivas que vão além da visão de uma Brasileira que vive no Reino Unido, ou de uma Britânica que nasceu no Brasil.

Sim, seria bom apenas limitar esta aventura em volta das qualidades estéticas das canções. Mas eu ficaria entediada muito rapidamente, e aposto que vocês também ficariam. Abordar os aspectos históricos, políticos, ambientais, tecnológicos e sociais que inspiram artistas é o que faz com que este tema seja tão interessante.

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