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Milton Nascimento portrait

Milton Nascimento e sua banda encantam a noite Londrina

Milton Nascimento portrait

Milton Nascimento

Milton Nascimento abriu o ano de 2013 em  Londres, com um show no Ronnie Scott’s Jazz Club.  Com uma agenda já lotada, não foi possível conseguir uma entrevista cara a cara. Apesar disso consegui dizer “oi” pessoalmente e agradecer pela entrevista por email. Assistir ao show incrível e poder conversar com o Milton, mesmo que brevemente, complementou uma entrevista que inicialmente era vazia do contato humano. Mas acho importante ressaltar que mesmo sem a cor e o ritmo de entrevistas ao vivo, as respostas que o Milton enviou por email, foram diretas e honestas. Foram respostas que me levaram a pensar sobre a produção musical com uma ótica diferente da qual eu estava seguindo.

E quanto ao show …Ah! O show!… O show foi uma experiência que entrou  para a minha lista de coisas que devem ser vividas, ao lado de outras como nadar com leões marinhos nas Ilhas do Galapagos ou ver a Aurora Boreal.  Tal evento me fez refletir  além de questões que possam ser traduzidas com palavras. Talvez por esta razão eu tenha demorando tanto para escrever este artigo.O desafio de descrever este show, com todo o seu lirismo e magia, é grande.

Confesso com uma certa vergonha, que esta foi a primeira vez que fui ao um show do Milton Nascimento. Esta foi também a primeira vez que eu entrava no Ronnie Scott’s Jazz Club – assim como foi a primeira vez, que Milton Nascimento, nos seus 50 anos de carreira, vinha a se apresentar neste clube mundialmente famoso. Estava passando da hora para nos dois. Do bar, dava para ter uma vista privilegiada do palco. Com uma capacidade para 250 pessoas, Ronnie Scott’s tem o tamanho ideal para quem realmente curte música. Os ingressos para o show do Milton  foram  esgotados para os todos as quatro apresentações naquele clube.

A banda da Casa

“Um dia que será difícil de ser batido – entrevistando @milton_bituca para @officialronnies Radio, abrindo o show para ele e cantando “Travessia” (Georgia Mancio no Twitter)”

O show foi aberto pela banda da casa,  “Ronnie Scott’s All Stars”,  com Georgia Mancio como vocalista. Um dia antes, no 25 de Janeiro, ela escreveu no Twitter  ” Um dia que será difícil de ser batido – entrevistando @milton_bituca para @officialronnies Radio, abrindo o show para ele e cantando Travessia” . Georgia compartilhou a entrevista com o publico e repetiu uma estória que ouviu do próprio Milton, quando este interpretou uma música do Tom Jobin, e o viu entrar no palco, bater no piano e dar a bronca: “ Esta não é minha musica!”.  Milton explicou ao Tom Jobim que ele era um intérprete e estava fazendo uma “interpretação”. Em seguida,  Georgia Mancio explicou que também é uma intérprete. De presente,  ela encantou a todos com a sua versão de Travessia. Com James Pearson no piano, Sam Burguess no baixo duplo e Dave Ohm na bateria, foi uma introdução que já fez valer a pena estar naquele lugar. Não! Milton não correu ao palco para interromper  o canto de Georgia, da mesma forma que Tom Jobim o fez. E como poderia? A interpretação de Travessia por Georgia Mancio foi simplesmente belíssima. Ela conseguiu trazer toda a profundeza da emoção que é tão importante para se interpretar uma música tão forte.

Milton entra no palco

Uma banda de peso acompanhou o Milton durante o show. Ele veio com:

  • o pianista  Kiko Continentino,  reconhecido pela sua versatilidade e especialisação na obra de Tom Jobim,
  • o guitarrista Wilson Lopes, que já integrou a banda “Edição Brasileira” com o maestro Mauro Rodrigues,
  • o baixista Gastao Villeroy , que se juntou a banda de Milton para co-produzir e gravar o DVD “Pietá”,
  • o grande baterista Lincoln Cheib, que já foi integrante da banda “Sagrado Coração da Terra”,
  •  o saxofonista Widor Santiago, que é  responsável por inúmeras trilhas sonoras para programas da TV Globo.

“Uma canção sem nome e sem letra, porque uma pessoa esta dentro dela”

Milton entra no palco, caminhando devagar. Os músicos de sua banda o ajudam discretamente a se mover entre os instrumentos e equipamentos, evitando tropeços.  E assim ele  abre  o show cantando Cais. Sua voz etérea, meio gótica, meio angelical, hipnotiza a audiência. E quando começa a cantar “Cravo e Canela”,  este senhor de 70 anos se transforma num gigante jovial. Em um instante, ele nos presenteia com uma canção que compôs para sua Mãe.  Uma canção sem nome nem letra, “porque a pessoa esta dentro dela” – como ele mesmo explicou.

Como nunca poderia faltar, Milton encanta a todos com “Para Lennon & McCartney”  . Num passe de mágica, ele consegue tirar do armário, todos os Brasileiros  presentes no clube. Os Brazucas , que já não eram invisíveis, fazem o coro,  acompanhando a música com o ritmo de palmas. Milton improvisa bem no estilo jazz e faz um refrão da parte “do lixo occidental”, caminha em direção a platéia e aponta o microfone para o público,  que repete melodicamente:  “do lixo, do lixo, do lixo occidental” . Todos continuam juntos a cantar com muita animação:  “Eu sou da América do Sul / Porque vocês não vão saber/ Mas agora eu sou cowboy/ Sou do Ouro/ Eu sou vocês/ Sou do mundo/ Sou Minas Gerais/”.  O momento foi simplesmente catártico. Era mais do que música. Era como ouvir um recital de poesia cheio de rebeldia discreta e gosto pela vida.

Ao tocar Maria Maria, uma música sobre força e coragem, toda a audiência se transformou em Marias, incluíndo o próprio Milton Nascimento, que nos mostrou toda sua garra, sua dor,  sua alegria, sua graça e sua habilidade de sempre ter um sonho. A este ponto, o público Britânico, já tinha perdido sua  formalidade e resistência, e também se transformou em “Marias”, acompanhando a música com palmas e cantando o refrão final “ La ue la laaa la ue la la la la ue, la la la laaaaa lau eu, la la la la la ra la la, la ra la ra la la la la la….” E assim continuamos a repetir o final da canção, que na verdade, não queríamos que terminasse – a nossa própria resposta para “Hey Jude”. De repente o refrão de Maria Maria se misturou com “Mais um, Mais um, Mais um” enquanto Milton e sua banda se retiravam do palco. Alguns minutos depois eles retornam para fechar a noite com a sublime  “Travessia”.

Conversando com o Milton

Foram não mais que cinco minutos que consistiram de um introdução, um aperto de mão e um muito obrigada por enviar as respostas das minhas perguntas por email. O gigante jovial ainda estava presente, mas em sua forma humana, que é ainda mais interessante, mostrando todas marcas do tempo bem  neste nosso planeta. Haviam muitas perguntas que eu gostaria de fazer, mas depois de um show tão intenso,decidi não incomodá-lo por mais do que aqueles cinco minutos.  Assim dizendo,  me contentei com as respostas enviadas por ele, alguns dias antes.

Respostas reveladoras a perguntas mal pesquisadas

Devo reconhecer que  algumas das perguntas que enviei ao Milton Nascimento foram mal pesquisadas. Não é que eu estava totalmente por fora. Mas Milton Nascimento é um artista com uma presença significante em Minas Gerais. E difícil lembrar que ele nasceu no Rio e tem morado na capital carioca por mais de 40 anos. Em tudo que se refere a Minas Gerais, suas canções inevitavelmente surgem como fundo musical. Por mais que ele insista que não é de Minas, o estado montanhoso  o adotou na marra como um de seus filhos mais ilustres. Mas ele deixou bem claro, que não faz música mineira: Milton  faz música. Ele também revelou que nunca levou a sério o rótulo ” World Music” e que o Clube da Esquina nunca foi um clube “Uai”. 🙂

Berimbaudrum introdução: Os últimos desenvolvimentos em Mídia Digital, especificamente em relação a distribuição, afetou profundamente a indústria de música, levando grandes gravadoras e distribuidoras ao colapso financial, como recentemente vimos a liquidação da HMV. Ao mesmo tempo, estes mesmos desenvolvimentos trazidos pela web (itunes, soundcloud, youtube, etc…) criaram oportunidades que não existiam antes para músicos independentes. A percepção  é  a de que músicos independentes Brasileiros são os mais pro-ativos no uso das mídias digitais, não apenas em termos de divulgação, como também de distribuição e desenvolvimento.  Poderíamos dizer que, mais do que nunca, através da Internet, os músicos Brasileiros estão indo “aonde o povo esta”, como você canta em os Bailes da Vida.  Apesar da diferença ser   de que muitas das estradas de terra dos internautas são virtuais, a Internet é ainda como se fosse um sertão, um velho oeste, que ainda exige muita determinação, energia e fé. Temos por exemplo, a banda mineira ” Graveola e o Lixo Polifonico “, que lançou todos os seus álbums na web. Baseando nestas informações, as minhas perguntas a você, Milton, são:

Ronise:  Se você estivesse começando a sua carreira hoje, qual seria a direção que você tomaria, considerando que as oportunidades e barreiras são muito diferentes ?

  • Milton Nascimento : É impossível pensar nisso, até porque eu não comecei minha carreira calculando que direção tomar. Inclusive, eu nunca fiz projeção de nada em toda minha vida. Assim como eu nunca gravei disco ou participei de algum projeto pensando num objetivo, numa finalidade, principalmente comercial. A única coisa que eu penso é na música em si e, se isso vai me trazer algum retorno, é apenas uma consequência da dedicação àquilo que eu amo.

Ronise: Quando você começou a sua carreira,  estávamos passando por mudanças muito profundas na nossa sociedade, apesar da opressão militar em quase todos os aspectos da vida dos Brasileiros. Hoje, temos um Brasil com um nível admirável de participação popular política,   cumprindo a promessa da nação do futuro. Qual é a sua visão desta nova realidade como artista, como cidadão do mundo, como Brasileiro, como Mineiro e como pessoa?

  • Milton Nascimento: Sem dúvida nenhuma que tivemos um avanço enorme no Brasil nos últimos anos, mas infelizmente ainda existe uma lista enorme de coisas que ainda precisam ser feitas. E o primeiro ponto que deve ser abordado com extrema urgência é a questão educacional. Se os governos dessem prioridade à educação de nossas crianças mais da metade de nossos problemas seriam resolvidos. É inaceitável um país com tantos recursos ter um dos piores níveis educacionais do planeta. As universidades públicas, assim como as escolas, estão completamente sucateadas e, o pior, os professores ganham mal e os alunos não tem qualquer tipo de estrutura. Como vamos ser o país do futuro se não cuidamos de nossos jovens?

Na verdade, eu não levo muito a sério esse negócio de World Music, pois pra mim, tudo é música e ponto final.

Ronise: A internet esta contribuindo para a promoção da tão chamada World Music, o que muitos críticos  consideram como o novo Rock in Roll. Evidentemente o termo “World Music” surgiu de uma perspectiva Britanica-Americana. Quais mudanças você prediz em relação ao espaço conquistado pela  música Brasileira na categoria World Music?

  • Milton: Na verdade, eu não levo muito a sério esse negócio de World Music, pois pra mim, tudo é música e ponto final. E o espaço da música brasileira no mundo começou a ser traçado desde que Pixinguinha correu o mundo com Os Oito Batutas. Depois disso, veio o furacão da Bossa Nova, com Tom, João e Vinicius abrindo os caminhos para a geração que veio depois, Gil, Caetano, Chico… Então, hoje a música brasileira já alcançou seu espaço há muito tempo.

Ronise: O seu estilo musical, e em geral, o estilo musical em Minas Gerais, ( pelo qual você tem recebido créditos como um dos músicos de maior influencia), se destaca de forma distinta por fugir de muitos dos estereótipos difundidos sobre o Brasil no exterior. Porem grande parte destes estereótipos são causados pela perda de valores culturais durante a tradução. Com a sua experiência fora do Brasil, o que você acredita serem os pontos de maior risco de serem estereotipados em relação a musica mineira, e quais são os pontos capazes de resistir a esta tendência?

  • Milton: Mais uma vez tenho que dizer, eu nunca faço nada pensando num objetivo final. Outra coisa, eu não faço música mineira, eu simplesmente faço música. E quem coloca os estereótipos é uma parcela da imprensa que sempre tende a rotular tudo.

Ronise: Milton, acredito que como artista, você serviu de inspiração a uma série de músicos que te seguiram desde a década de 70 ate agora. E isto não apenas em termos de estilo musical, como também e principalmente no espírito independente, inovador e próximo da audiência. A minha percepção e a de que os artistas independentes mineiros de hoje tomaram para si a frase ” todo artista deve ir aonde o povo esta” seriamente como um mantra que seguem dia a dia. Porem, há ainda aqueles que consideraram o liderança musical de Minas nas décadas de 70 ate 90, dito o “Clube da Esquina”, como um clube exclusivo e fechado, monopolizando a cena musical de Minas. Qual e a sua percepção e posicionamento neste assunto?

Primeiro, o Clube da Esquina nunca foi um clube. Um clube tem que ter sócios, sede e estatuto. E o Clube da Esquina também nunca foi um movimento, porque movimento tem que ter certo embasamento sociológico. Clube da Esquina é apenas uma calçada entre as ruas Divinópolis e Paraisópolis localizado no bairro de Santa Tereza onde um grupo de amigos se reunia nos anos 1960\1970 pra fazer música e jogar conversa fora.

  • Milton:Primeiro, o Clube da Esquina nunca foi um clube. Um clube tem que ter sócios, sede e estatuto. E o Clube da Esquina também nunca foi um movimento, porque movimento tem que ter certo embasamento sociológico. Clube da Esquina é apenas uma calçada entre as ruas Divinópolis e Paraisópolis localizado no bairro de Santa Tereza onde um grupo de amigos se reunia nos anos 1960\1970 pra fazer música e jogar conversa fora. Agora, não entendo isso que você falou de monopólio. Se for assim, então Skank, Jota Quest, Pato Fu e Sepultura monopolizam a cena do rock mineiro e, por serem bandas, podem ser consideradas ainda mais fechadas e exclusivas do que qualquer coisa. Outra, não sei se você sabe, mas eu moro no Rio de Janeiro desde 1967, então, como eu posso fazer parte de um cenário monopolizado do qual eu me encontro fora há mais de quarenta anos? Ao invés de discutirmos “monopólio” e “exclusivo” poderíamos falar de como Minas Gerais entrou no mapa da música mundial depois do trabalho feito por nós a partir dos anos 1960 e o trabalho feito hoje por Sepultura, Skank e muitos outros talentos que surgiram depois da gente.
Clube da Esquina

Clube da Esquina: 40 anos de música e poesia

Um dos movimentos  musicais mais poéticos do Brasil, se não o mais, completa 40 anos. O Clube da Esquina começou em 1963, quando Milton Nascimento conheceu os irmãos Lô Borges e Márcio Borges. Milton Nascimento, o mais famoso cantor e compositor de Minas Gerais, já era conhecido pelo publico com a sua voz afinadíssima e com uma qualidade quase hipnótica. Nascimento apresentou os irmãos Borges a Wagner Tiso e o resto de sua Banda. Outros músicos, como Tavinho Moura, Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Beto Guedes, Flávio Venturini e 14Bis juntaram-se ao coletivo, durante o resto dos anos 60 e 70.

Em 1972, Milton Nascimento e Lô Borges lançaram o álbum “Clube da Esquina”, e é assim que o nome ficou gravado na História da Música Popular Brasileira. “Clube da Esquina” marcou um novo movimento musical cheio de renovação estética, melodia e fusão de ritmos tradicionais e originais. Suas influências foram diversas. Eles exploraram canções folclóricas e tradicionais, a Bossa Nova urbana, adicionaram toques de pop britânico e da psicodélia Californiana , como também se utilizaram de arranjos ousados ​​inspirados na obra dos Beatles. E tudo o que aconteceu durante um período muito difícil sob o olhar atento dos censores militares.  O primeiro álbum do Clube da Esquina  nos presenteou com canções como:

O Trem Azul

Cais

Cravo e Canela

Um Girassol da Cor de seus Cabelos

Paisagem na Janela

Trem Tan Tan

Train Tan Tan


A banda “Trem Tan Tan” se originou a partir de um projeto de saúde mental, coordenado pelo músico Babilak Bah. Seus 8 membros (Rosilene Leandro, Olavo Rita, Edson Oliveira, Gilberto da Rocha, Mauro Camilo, Carlos Ferreira, Alexander Evangelho e Isaura da Cunha) estão comemorando uma década viajando neste trem com o lançamento do CD “Sambabibolado”.

A banda é formada por portadores de sofrimento mental do Centro de Convivência de Venda Nova, em Belo Horizonte, Minas Gerais, e surgiu a partir de uma oficina de percussão ministrada por Babilak Bah em 2001. O primeiro CD que gravaram, “Trem Tan-Tan”, contou com a participação de Roger Moore e Rita Medeiros.

Links Oficiais

http://www.myspace.com/tremtantan

Babilak Bah

Babilak Bah: Um Homem Inquieto

 

Babilak Bah é um artista que se traduz em inovação. O músico auto-didata, percussionista , compositor e poeta Paraibano, prefere se chamar de “propositor” do que compositor. Com o seu trabalho, ele propõe um modo diferente de inserir música e poesia dentro da consciência social. No álbum “O Enxádario: Orquestra de enxadas”, Babilak transforma a repetição do trabalho duro nas plantações numa batida cartática que mistura samba, jazz, funk e clássico. O resultado pode parecer uma bagunça de significados, mas a idéia produz um efeito interessante que inspira movimento e descoberta.

Biografia de Homens Inquietos

O seu novo álbum, “Biografia de Homens Inquietos”, acabou de ser lançado com trabalhos inéditos. Enquanto eu escrevia este artigo em Inglês, me preocupei em conseguir a tradução exata da palavra inquieto. Para isso, achei que o melhor seria perguntar ao próprio Babilak o que ele queria dizer com o título. Babilak explicou: “A Biografia de Homens inquietos é um trabalho autobiográfico, antropofágico e existencialista. Fala sobre as minhas próprias experiências, inquietude e a minha constante procura por renovação”.

Pergunte ao artista

Se você gostaria de saber mais sobre “Biografia de homens inquietos” ou “O Enxádario: Orquestra de Enxadas”, a oportunidade está aqui. Através de Berimbaudrum, você pode perguntar diretamente ao artista. Chequei com Babilak se ele estaria preparado para responder as perguntas feitas pelos Internautas. Ele respondeu com um entusiástico “Sim”. Tudo o que você precisa fazer é deixar um comentário para este artigo.

Makely Ka por Soares

Makely Ka e o seu Cavalo a Motor

Não é raro ver uma lista de diferentes especializações, carreiras e funções de trabalho na biografia de um número de brasileiros. Talvez devido a períodos de recursos limitados, não tivemos escolha, mas para diversificar nossas habilidades, através do uso de chapéus diferentes ao mesmo tempo. Ou, talvez, este é apenas intrínseca ao modo de vida brasileiro. Afinal, o Brasil é um país muito diversificado em termos de pessoas, paisagens e culturas. É possível que seja esta combinação que produz artistas com uma abordagem holística, empreendedora e flexível. Makely Ka é um desses artistas. O compositor, poeta, escritor, compositor, editor de revista e viajante de Minas Gerais, é uma máquina criativa.

Seu projeto mais recente, “Cavalo Motor”, o levou para uma aventura através do sertão brasileiro, onde ele mergulhou profundamente nas raízes da cultura popular brasileira, assimilando elementos da tradição oral, como contar histórias, língua-travas e canções  folclóricas.

“Cavalo Motor” é baseado no livro épico de João Guimarães Rosa, “Grande Sertão Veredas”. Montado em uma bicicleta e equipado com um computador sempre connectado à Internet,  Makely Ka percorreu os mesmos caminhos que Riobaldo, o personagem principal do livro de Guimarães Rosa. A idéia era representar uma relação simbiótica entre homem e máquina. O computador que lhe permitiu relatar sua aventura em tempo real através da Internet, foi alimentado pela energia produzida a partir de suas muitas horas pedalando. O cavalo motorizado, ele está se referindo, é a Internet e não a bicicleta. Makely, o ciclista, torna-se a interface entre duas tecnologias diferentes. Através deste projecto, o artista traça um paralelo entre o passado eo presente do sertão, protestando contra o desenvolvimento insustentável e predatório da região, com suas monoculturas de soja e eucalipto,  fornos de carvão e exploração destrutiva dos minerais . Ao mesmo tempo, ele vê “Cavalo Motor” como um meio de renovar a esperança e reabrir novos caminhos para a civilização humana.

Links Oficiais

http://makelyka.com.br/

http://www.myspace.com/makelyka

Graceland Youtube clip

Graceland: Da quebra de um boicote ao lançamento da World Music

“Estes são os dias de milagre e maravilha…

Isto é uma chamada de longa distância…”

Graceland poderia ter sido um desastre histórico e o fim da carreira de Paul Simon. Em vez disso, tornou-se uma ponte sobre águas turvas. O álbum, que causou muita controvérsia,  trouxe  músicos Sul-Africanos para a atenção do mundo, como Ladysmith Black Mambazo, Youssou N’Dour, Miriam Makeba  e Hugh Masekela.  Apesar de que tinha tudo para dar errado , acabou como o álbum mais bem sucedido de Paul Simon, vendendo mais de 14 milhões de cópias desde seu lançamento em 1986. O momento não poderia ter sido mais arriscado, com Nelson Mandela na prisão e ainda com um boicote cultural das Nações Unidas contra o regime do Apartheid na Africa do Sul, que vigorava na época. Enquanto Paul Simon era acusado de quebrar o boicote, muitos artistas sul-africanos  o defenderam por ter criado uma ponte que permitiu a rica herança musical Sul Africana alcançar o resto do mundo. Agora  todos os argumentos e críticas contra a iniciativa de Paul Simon, em 1986,  são águas passadas, com a maior parte da estória disponível na Internet. Um dos meus blogs favoritos sobre este assunto é o de Ethan Zuckerman, fundador do Global Voices, em que ele conta a história completa por trás da produção de Graceland no post “Graceland de Paul Simon e lições para xenophiles”( “Paul Simon’s Graceland and lessons for xenophiles”).

Tomar inspiração de outras culturas é algo que os músicos sempre fizeram. Este processo pode muitas vezes acontecer por meio de assimilação,  aculturalização, ou mesmo apropriação. Graceland foi diferente porque teve uma  abordagem mais criativa  e involveu uma colaboração entre parceiros. Como revelado em vários documentários, Paul Simon não tinha as músicas prontas no início do projeto. Ele reuniu as bandas no estúdio e pediu-lhes para tocar músicas improvisadas, que foram, então, amendadas em sessões diferentes de gravação. Canções como “The Boy in the Bubble”, “I know what I know”, “Gumboots”, “Homeless” e “Diamonds in the sole of her shoes”, onde os artistas Sul-Africanos compartilharam  os créditos de composição com Paul Simon, são bons exemplos deste processo. No entanto, talvez  parte da polêmica em torno de “Graceland” foi o fato de que, devido às questões políticas na África do Sul naquela época, havia uma expectativa de que  Simon iria produzir um álbum beneficente. Acho importante diferenciar um “álbum beneficiente” de um “álbum colaborativo”. Álbuns beneficientes podem ser registrados desde o “Concerto para Bangladesh” de George Harrison, em 1971.  Em 1984, tivemos Bob Geldof  com “Do they know is Christmas” e  o concerto LiveAid. O album do Bob Geldof era muito mais ambicioso do que o de George Harrison. Além do mais  não houve colaboração com artistas Africanos. No  “Concerto para Bangladesh” havia  pelo menos a colaboração  com Ravi Shankar.

Não é de se surpreender que  haja cinismo em torno dos álbuns beneficientes. Ficam no ar as perguntas: Quem é que está realmente sendo beneficiando, quando um desastre se transforma em uma festa e um espetáculo é tão grande quanto uma tragédia? Quais são as reais intenções por trás das celebridades envolvidas, quando, durante um ponto baixo na carreira, suas ações podem ser traduzidas em mais uma oportunidade para promoção? Quem monitora os processos para se certificar de que a maior parte do dinheiro arrecadado é usado para cumprir os seus objectivos iniciais, enquanto seria ridiculamente ingênuo acreditar que todo esse dinheiro possa atravessar fronteiras,  passar por mercenários, políticos locais e rebeldes do exército sem qualquer subtração? No caso do LiveAid, um concerto que adquiriu uma aura sagrada, qualquer questionamento pode ser tratado como uma blasfêmia insultante, como foi experimentado pelo colunista do The Guardian,  Rageh Omaar. Em 2010, Omaar escrever o artigo “Mesmo Band Aid  não está acima de críticas”(Even Band Aid is not above criticism ) e recebeu ataques ferozes diretos do Bob Geldof.

Críticos de álbuns beneficientes e concertos acreditam que esses eventos reforçam o etnocentrismo Europeu, ignorando as questões políticas por trás de desastres ambientais. Eles são transformados em uma forma para os ricos nos países desenvolvidos aliviar facilmente o sentimento de  culpa através de obras de caridade, enquanto roubam a dignidade daqueles que são “ajudados”. Afinal, o que poderia ser mais condescendente do que cantar “E não haverá neve na África neste tempo de Natal … O maior presente que vai ter este ano é a vida .. (Oooh) Onde nada nunca cresce … Nem chuva nem rios .. Será que eles sabem que é tempo de Natal, afinal? ”

No entanto, o trabalho de Bob Geldof se tornou um modelo para álbuns beneficientes: músicos famosos em todo o mundo eram recrutados para participar desses álbuns de acordo com a sua base de fãs. Logo depois de “Do they know is Christmas”, Michael Jackson organizou um trabalho semelhante com outros  artistas, incluindo Paul Simon, para gravar “We are the world”, sob o título “EUA para a África”. “We are the World” teve tanto a ver com a música do mundo como “Do they know is Christmas”. Mais uma vez, não houve nenhuma participação de artistas Africanos. Este fato inspirou Peter Gabriel a lançar a gravadora RealWorld , que foi uma das primeiras gravadoras a  distribuir  World Music. A partir de meados dos anos 80,  a crise humanitária da África ainda era notícia de manchetes. A Guerra Fria estava se tornando irrelevante, especialmente com a desintegração da União Soviética e a queda do Muro de Berlim. As ditaduras militares criadas pelos EUA, França e Reino Unido na América Latina, em sua tentativa de impedir de que qualquer  uma dessas nações se tornassem socialistas, também foram terminando com a entrega de poder dos militares para governos democraticamente eleitos. O conceito de Primeiro, Segundo e Terceiro mundos também comecou a mudar. Originalmente, após a Segunda Guerra Mundial, falava-se apenas de  primeiro e segundo mundos. Estes conceitos eram usados ​​para representar um mundo dividido pelos blocos capitalistas e  socialistas. Em 1952, Alfred Sauvy, um historiador Francês, cunhou o termo terceiro mundo em um artigo escrito para L’Observateur, para categorizar os países que tomaram uma posição neutra. Foi mais tarde que a mídia explorou este termo para se referir às nações mais pobres ou nações que não seguem o mesmo modelo de desenvolvimento dos Estados Unidos e Europa.

Enquanto isso, no Brasil, a cobertura da crise humanitária na África estava causando uma reação mista. Embora houvesse muita simpatia pela situação em Etiópia, ativistas locais lutavam  pela mesma atenção para uma crise humanitária semelhante no Brasil. A região nordestina estava passando por uma seca severa e fome que duravam décadas. Inspirado pelo Live Aid e USA for África, um grupo de artistas Brasileiros se reuniram para um álbum beneficente para  o Nordeste do Brasil, chamado “Nordeste Já” . O videoclipe da canção “Chega de mágoa” , reúne artistas brasileiros de todo o país, representando a diversidade étnica e musical do Brasil. Os produtores seguiram o mesmo modelo criado por Bob Geldof.

É interessante notar o contraste entre o clipe de “Chega de mágoa” e outro clipe do mesmo álbum chamado Seca D’agua .

Enquanto o  primeiro clipe conta com a participação de artistas de todo o Brasil, Seca D’Agua é composto apenas por artistas do Nordeste. Um dos versos faz uma referência direta à situação na Etíopia “eles estão sofrendo por lá, mas o maior sofrimento é nessas bandas de cá” , o que talvez revele um ressentimento em relação ao fato de que a mídia ignorou as tragédias nacionais em favor de temas internacionais. Esta situação foi percebida como um paradoxo para muitos Brasileiros que debatiam sobre quem precisava de mais ajuda: aqueles em um país distante ou aqueles em casa? No entanto, no Brasil, o álbum “Nordeste Já” vendeu menos do que “We are the World”.

Apesar da cobertura da Etiópia em 1986, quando Graceland foi lançado, nós Brasileiros em geral não sabiamos com detalhes sobre o que estava acontecendo na África, especialmente na África do Sul. Isso mudou com Graceland. Em 1989, Paul Simon chega ao Brasil para produzir o álbum “Rhythm of Saints” com o grupo Olodum, que até 1990, não eram muito conhecidos fora do estado da Bahia.


A batida peculiar do Olodum foi usada por Paul Simon como a abertura para a música “Obvious Child” do álbum Rhythm of Saints.