Milton Nascimento e sua banda encantam a noite Londrina

Milton Nascimento portrait

Milton Nascimento

Milton Nascimento abriu o ano de 2013 em  Londres, com um show no Ronnie Scott’s Jazz Club.  Com uma agenda já lotada, não foi possível conseguir uma entrevista cara a cara. Apesar disso consegui dizer “oi” pessoalmente e agradecer pela entrevista por email. Assistir ao show incrível e poder conversar com o Milton, mesmo que brevemente, complementou uma entrevista que inicialmente era vazia do contato humano. Mas acho importante ressaltar que mesmo sem a cor e o ritmo de entrevistas ao vivo, as respostas que o Milton enviou por email, foram diretas e honestas. Foram respostas que me levaram a pensar sobre a produção musical com uma ótica diferente da qual eu estava seguindo.

E quanto ao show …Ah! O show!… O show foi uma experiência que entrou  para a minha lista de coisas que devem ser vividas, ao lado de outras como nadar com leões marinhos nas Ilhas do Galapagos ou ver a Aurora Boreal.  Tal evento me fez refletir  além de questões que possam ser traduzidas com palavras. Talvez por esta razão eu tenha demorando tanto para escrever este artigo.O desafio de descrever este show, com todo o seu lirismo e magia, é grande.

Confesso com uma certa vergonha, que esta foi a primeira vez que fui ao um show do Milton Nascimento. Esta foi também a primeira vez que eu entrava no Ronnie Scott’s Jazz Club – assim como foi a primeira vez, que Milton Nascimento, nos seus 50 anos de carreira, vinha a se apresentar neste clube mundialmente famoso. Estava passando da hora para nos dois. Do bar, dava para ter uma vista privilegiada do palco. Com uma capacidade para 250 pessoas, Ronnie Scott’s tem o tamanho ideal para quem realmente curte música. Os ingressos para o show do Milton  foram  esgotados para os todos as quatro apresentações naquele clube.

A banda da Casa

“Um dia que será difícil de ser batido – entrevistando @milton_bituca para @officialronnies Radio, abrindo o show para ele e cantando “Travessia” (Georgia Mancio no Twitter)”

O show foi aberto pela banda da casa,  “Ronnie Scott’s All Stars”,  com Georgia Mancio como vocalista. Um dia antes, no 25 de Janeiro, ela escreveu no Twitter  ” Um dia que será difícil de ser batido – entrevistando @milton_bituca para @officialronnies Radio, abrindo o show para ele e cantando Travessia” . Georgia compartilhou a entrevista com o publico e repetiu uma estória que ouviu do próprio Milton, quando este interpretou uma música do Tom Jobin, e o viu entrar no palco, bater no piano e dar a bronca: “ Esta não é minha musica!”.  Milton explicou ao Tom Jobim que ele era um intérprete e estava fazendo uma “interpretação”. Em seguida,  Georgia Mancio explicou que também é uma intérprete. De presente,  ela encantou a todos com a sua versão de Travessia. Com James Pearson no piano, Sam Burguess no baixo duplo e Dave Ohm na bateria, foi uma introdução que já fez valer a pena estar naquele lugar. Não! Milton não correu ao palco para interromper  o canto de Georgia, da mesma forma que Tom Jobim o fez. E como poderia? A interpretação de Travessia por Georgia Mancio foi simplesmente belíssima. Ela conseguiu trazer toda a profundeza da emoção que é tão importante para se interpretar uma música tão forte.

Milton entra no palco

Uma banda de peso acompanhou o Milton durante o show. Ele veio com:

  • o pianista  Kiko Continentino,  reconhecido pela sua versatilidade e especialisação na obra de Tom Jobim,
  • o guitarrista Wilson Lopes, que já integrou a banda “Edição Brasileira” com o maestro Mauro Rodrigues,
  • o baixista Gastao Villeroy , que se juntou a banda de Milton para co-produzir e gravar o DVD “Pietá”,
  • o grande baterista Lincoln Cheib, que já foi integrante da banda “Sagrado Coração da Terra”,
  •  o saxofonista Widor Santiago, que é  responsável por inúmeras trilhas sonoras para programas da TV Globo.

“Uma canção sem nome e sem letra, porque uma pessoa esta dentro dela”

Milton entra no palco, caminhando devagar. Os músicos de sua banda o ajudam discretamente a se mover entre os instrumentos e equipamentos, evitando tropeços.  E assim ele  abre  o show cantando Cais. Sua voz etérea, meio gótica, meio angelical, hipnotiza a audiência. E quando começa a cantar “Cravo e Canela”,  este senhor de 70 anos se transforma num gigante jovial. Em um instante, ele nos presenteia com uma canção que compôs para sua Mãe.  Uma canção sem nome nem letra, “porque a pessoa esta dentro dela” – como ele mesmo explicou.

Como nunca poderia faltar, Milton encanta a todos com “Para Lennon & McCartney”  . Num passe de mágica, ele consegue tirar do armário, todos os Brasileiros  presentes no clube. Os Brazucas , que já não eram invisíveis, fazem o coro,  acompanhando a música com o ritmo de palmas. Milton improvisa bem no estilo jazz e faz um refrão da parte “do lixo occidental”, caminha em direção a platéia e aponta o microfone para o público,  que repete melodicamente:  “do lixo, do lixo, do lixo occidental” . Todos continuam juntos a cantar com muita animação:  “Eu sou da América do Sul / Porque vocês não vão saber/ Mas agora eu sou cowboy/ Sou do Ouro/ Eu sou vocês/ Sou do mundo/ Sou Minas Gerais/”.  O momento foi simplesmente catártico. Era mais do que música. Era como ouvir um recital de poesia cheio de rebeldia discreta e gosto pela vida.

Ao tocar Maria Maria, uma música sobre força e coragem, toda a audiência se transformou em Marias, incluíndo o próprio Milton Nascimento, que nos mostrou toda sua garra, sua dor,  sua alegria, sua graça e sua habilidade de sempre ter um sonho. A este ponto, o público Britânico, já tinha perdido sua  formalidade e resistência, e também se transformou em “Marias”, acompanhando a música com palmas e cantando o refrão final “ La ue la laaa la ue la la la la ue, la la la laaaaa lau eu, la la la la la ra la la, la ra la ra la la la la la….” E assim continuamos a repetir o final da canção, que na verdade, não queríamos que terminasse – a nossa própria resposta para “Hey Jude”. De repente o refrão de Maria Maria se misturou com “Mais um, Mais um, Mais um” enquanto Milton e sua banda se retiravam do palco. Alguns minutos depois eles retornam para fechar a noite com a sublime  “Travessia”.

Conversando com o Milton

Foram não mais que cinco minutos que consistiram de um introdução, um aperto de mão e um muito obrigada por enviar as respostas das minhas perguntas por email. O gigante jovial ainda estava presente, mas em sua forma humana, que é ainda mais interessante, mostrando todas marcas do tempo bem  neste nosso planeta. Haviam muitas perguntas que eu gostaria de fazer, mas depois de um show tão intenso,decidi não incomodá-lo por mais do que aqueles cinco minutos.  Assim dizendo,  me contentei com as respostas enviadas por ele, alguns dias antes.

Respostas reveladoras a perguntas mal pesquisadas

Devo reconhecer que  algumas das perguntas que enviei ao Milton Nascimento foram mal pesquisadas. Não é que eu estava totalmente por fora. Mas Milton Nascimento é um artista com uma presença significante em Minas Gerais. E difícil lembrar que ele nasceu no Rio e tem morado na capital carioca por mais de 40 anos. Em tudo que se refere a Minas Gerais, suas canções inevitavelmente surgem como fundo musical. Por mais que ele insista que não é de Minas, o estado montanhoso  o adotou na marra como um de seus filhos mais ilustres. Mas ele deixou bem claro, que não faz música mineira: Milton  faz música. Ele também revelou que nunca levou a sério o rótulo ” World Music” e que o Clube da Esquina nunca foi um clube “Uai”. 🙂

Berimbaudrum introdução: Os últimos desenvolvimentos em Mídia Digital, especificamente em relação a distribuição, afetou profundamente a indústria de música, levando grandes gravadoras e distribuidoras ao colapso financial, como recentemente vimos a liquidação da HMV. Ao mesmo tempo, estes mesmos desenvolvimentos trazidos pela web (itunes, soundcloud, youtube, etc…) criaram oportunidades que não existiam antes para músicos independentes. A percepção  é  a de que músicos independentes Brasileiros são os mais pro-ativos no uso das mídias digitais, não apenas em termos de divulgação, como também de distribuição e desenvolvimento.  Poderíamos dizer que, mais do que nunca, através da Internet, os músicos Brasileiros estão indo “aonde o povo esta”, como você canta em os Bailes da Vida.  Apesar da diferença ser   de que muitas das estradas de terra dos internautas são virtuais, a Internet é ainda como se fosse um sertão, um velho oeste, que ainda exige muita determinação, energia e fé. Temos por exemplo, a banda mineira ” Graveola e o Lixo Polifonico “, que lançou todos os seus álbums na web. Baseando nestas informações, as minhas perguntas a você, Milton, são:

Ronise:  Se você estivesse começando a sua carreira hoje, qual seria a direção que você tomaria, considerando que as oportunidades e barreiras são muito diferentes ?

  • Milton Nascimento : É impossível pensar nisso, até porque eu não comecei minha carreira calculando que direção tomar. Inclusive, eu nunca fiz projeção de nada em toda minha vida. Assim como eu nunca gravei disco ou participei de algum projeto pensando num objetivo, numa finalidade, principalmente comercial. A única coisa que eu penso é na música em si e, se isso vai me trazer algum retorno, é apenas uma consequência da dedicação àquilo que eu amo.

Ronise: Quando você começou a sua carreira,  estávamos passando por mudanças muito profundas na nossa sociedade, apesar da opressão militar em quase todos os aspectos da vida dos Brasileiros. Hoje, temos um Brasil com um nível admirável de participação popular política,   cumprindo a promessa da nação do futuro. Qual é a sua visão desta nova realidade como artista, como cidadão do mundo, como Brasileiro, como Mineiro e como pessoa?

  • Milton Nascimento: Sem dúvida nenhuma que tivemos um avanço enorme no Brasil nos últimos anos, mas infelizmente ainda existe uma lista enorme de coisas que ainda precisam ser feitas. E o primeiro ponto que deve ser abordado com extrema urgência é a questão educacional. Se os governos dessem prioridade à educação de nossas crianças mais da metade de nossos problemas seriam resolvidos. É inaceitável um país com tantos recursos ter um dos piores níveis educacionais do planeta. As universidades públicas, assim como as escolas, estão completamente sucateadas e, o pior, os professores ganham mal e os alunos não tem qualquer tipo de estrutura. Como vamos ser o país do futuro se não cuidamos de nossos jovens?

Na verdade, eu não levo muito a sério esse negócio de World Music, pois pra mim, tudo é música e ponto final.

Ronise: A internet esta contribuindo para a promoção da tão chamada World Music, o que muitos críticos  consideram como o novo Rock in Roll. Evidentemente o termo “World Music” surgiu de uma perspectiva Britanica-Americana. Quais mudanças você prediz em relação ao espaço conquistado pela  música Brasileira na categoria World Music?

  • Milton: Na verdade, eu não levo muito a sério esse negócio de World Music, pois pra mim, tudo é música e ponto final. E o espaço da música brasileira no mundo começou a ser traçado desde que Pixinguinha correu o mundo com Os Oito Batutas. Depois disso, veio o furacão da Bossa Nova, com Tom, João e Vinicius abrindo os caminhos para a geração que veio depois, Gil, Caetano, Chico… Então, hoje a música brasileira já alcançou seu espaço há muito tempo.

Ronise: O seu estilo musical, e em geral, o estilo musical em Minas Gerais, ( pelo qual você tem recebido créditos como um dos músicos de maior influencia), se destaca de forma distinta por fugir de muitos dos estereótipos difundidos sobre o Brasil no exterior. Porem grande parte destes estereótipos são causados pela perda de valores culturais durante a tradução. Com a sua experiência fora do Brasil, o que você acredita serem os pontos de maior risco de serem estereotipados em relação a musica mineira, e quais são os pontos capazes de resistir a esta tendência?

  • Milton: Mais uma vez tenho que dizer, eu nunca faço nada pensando num objetivo final. Outra coisa, eu não faço música mineira, eu simplesmente faço música. E quem coloca os estereótipos é uma parcela da imprensa que sempre tende a rotular tudo.

Ronise: Milton, acredito que como artista, você serviu de inspiração a uma série de músicos que te seguiram desde a década de 70 ate agora. E isto não apenas em termos de estilo musical, como também e principalmente no espírito independente, inovador e próximo da audiência. A minha percepção e a de que os artistas independentes mineiros de hoje tomaram para si a frase ” todo artista deve ir aonde o povo esta” seriamente como um mantra que seguem dia a dia. Porem, há ainda aqueles que consideraram o liderança musical de Minas nas décadas de 70 ate 90, dito o “Clube da Esquina”, como um clube exclusivo e fechado, monopolizando a cena musical de Minas. Qual e a sua percepção e posicionamento neste assunto?

Primeiro, o Clube da Esquina nunca foi um clube. Um clube tem que ter sócios, sede e estatuto. E o Clube da Esquina também nunca foi um movimento, porque movimento tem que ter certo embasamento sociológico. Clube da Esquina é apenas uma calçada entre as ruas Divinópolis e Paraisópolis localizado no bairro de Santa Tereza onde um grupo de amigos se reunia nos anos 1960\1970 pra fazer música e jogar conversa fora.

  • Milton:Primeiro, o Clube da Esquina nunca foi um clube. Um clube tem que ter sócios, sede e estatuto. E o Clube da Esquina também nunca foi um movimento, porque movimento tem que ter certo embasamento sociológico. Clube da Esquina é apenas uma calçada entre as ruas Divinópolis e Paraisópolis localizado no bairro de Santa Tereza onde um grupo de amigos se reunia nos anos 1960\1970 pra fazer música e jogar conversa fora. Agora, não entendo isso que você falou de monopólio. Se for assim, então Skank, Jota Quest, Pato Fu e Sepultura monopolizam a cena do rock mineiro e, por serem bandas, podem ser consideradas ainda mais fechadas e exclusivas do que qualquer coisa. Outra, não sei se você sabe, mas eu moro no Rio de Janeiro desde 1967, então, como eu posso fazer parte de um cenário monopolizado do qual eu me encontro fora há mais de quarenta anos? Ao invés de discutirmos “monopólio” e “exclusivo” poderíamos falar de como Minas Gerais entrou no mapa da música mundial depois do trabalho feito por nós a partir dos anos 1960 e o trabalho feito hoje por Sepultura, Skank e muitos outros talentos que surgiram depois da gente.
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